Prólogo – A Lâmina de Ferro (Parte 3 – Final)


O herói acordou assustado, suando. A noite estava quente, muito quente. Impensável naquela época do ano.

O ar estava pesado. Seu coração batia rápido e forte. O corpo dizia para fugir. A mente, que não faria diferença.

E então ele ouviu a risada de uma hiena. Louca, faminta, doentia. Mas… tal animal não habitava naquelas terras.

— Olá! — soou uma voz num dos ouvidos do herói. Um braço se enroscando no outro lado, perigosamente próximo ao pescoço.

Virando-se para ver quem era, uma mão indo instintivamente para a espada, ele perde o fôlego.

A milímetros do rosto, encarava um sorriso diabólico. Dentes serrilhados preenchiam uma bocarra vagamente humana. Narinas soltavam uma fumaça nauseante. Olhos de puro breu arrancavam qualquer esperança.

— Creio que estava me procurando. — continuou o demônio, gargalhando, a mesma risada de hiena de antes.

O medo era palpável, mas o herói não podia se deixar levar pelo mesmo. Não iria ajudá-lo em nada. Aparentemente o monstro não o queria morto.

Tirando coragem sabe-se lá de onde, ele se afasta da criatura, agora vendo-o melhor. Tinha chifres, longos e retos, em casa lado do rosto; as orelhas pontudas; o cabelo liso e longo. Faltava-lhe um dos braços.

— Interesse… — murmurou o demônio — A maioria não se porta com tanta dignidade. Sabe… Você tem sorte. Muita sorte! — comentou, mostrando ainda mais os dentes. — Eu tenho um presente para você.

O monstro sumiu. E o herói sentiu uma mão queimando em seu braço, escorrendo devagar, deixando a pele vermelha e com bolhas. Até chegar em sua mão, onde colocou algo gélido.

— Faça o que quiser com ela. — e o toque fervente desapareceu.

O herói desabou de joelhos no chão. Com o estômago embrulhado, vomitou. O demônio sumiu. A mão segurava o cabo de uma espada. Sua mente se desligou do mundo.

O sol já amanhecia, brilhando dolorosamente nos olhos, quando o herói voltou a si.

Ele nunca soube o que aconteceu de verdade. A única certeza era de que aquela espada era a espada que a jovem falou. A espada capaz de libertá-la. A espada capaz de matar o dragão.

Ele não fazia ideia de onde vinha tanta convicção, mas ele sabia ser verdade. Tinha que ser verdade.

Lentamente, nosso herói se arrumou, se preparando para seguir viagem. De volta para a colina. A colina da jovem aprisionada. A colina do dragão maligno.

Ele andou e andou. A mente vazia. O corpo não mais pedindo sustância. Até se deparar novamente com a inóspita colina.

O herói ouviu um sonoro rugido ecoar por toda a região.

“O dragão!”

Ele correu morro acima, a espada endemoniada na mão.

“E a jovem?”, ele se perguntou, não querendo saber de verdade a resposta, qualquer que fosse.

O desespero no peito, ele correu. Gastou todas as suas energias, chegando ofegante no topo.

E lá ele encontrou a jovem, de pé, olhando para o céu com uma tristeza de cortar o coração.

Farpas metálicas do tamanho de uma pessoa formavam um círculo perfeito ao seu redor. O dragão esteve ali e nada fez?

— V-você está bem? — ele perguntou, hesitante.

A jovem se virou, num susto. Ia começar a responder quando seu queixo caiu e seus olhos se arregalaram.

O herói se aproximou mais. Q jovem começou a soluçar. E a chorar. E a fugir.

Tomada por desespero, ela tentava em vão se livrar de suas correntes, machucando pulsos e tornozelos.

Confuso ele se aproximou um pouco mais, sem saber por que a jovem tinha tanto medo.

Quase tarde demais… ele percebeu. Sua mão levantada. A espada desembainhada. Pronta para golpear. Certeira. O pescoço da jovem.

“Claro que é amaldiçoada!”, pensou, se maldizendo. Presente de um demônio, tinha vida própria. Exigia sangue.

No entanto, não era isso o que queria. Sonhava em ser herói, não assassino. Matar o dragão e salvar a todos.

Matar o dragão salvaria alguém?

Tirando forças de sabe-se lá onde, o herói conseguiu controlar o próprio braço, desviando o golpe. A lâmina raspando a lateral da jovem, atingindo em cheio as correntes.

Livre, ela correu e correu, deixando para trás nosso herói e sua espada amaldiçoada.

Um dia se passou sem que o herói saísse de onde estava. Frustrado. Confuso. Pelo menos tinha salvado a jovem…

Seus transe foi interrompido por um grunhido grave e um ronronar muito alto vindo da direção cuja qual a jovem correu.

Se virando, ele arregalou os olhos: o dragão estava lá.

Um estranho conforto e reconhecimento batem na mente do herói, que se aproximou da criatura, deixando a espada para trás.

— É você? — o herói perguntou, tocando o focinho do réptil com a mão.

— Sim. — ecoa uma voz estranha e conhecida na sua mente.

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