Prólogo – A Lâmina de Ferro (Parte 1)


Hoje eu vou contar para vocês uma história de luta de superação e de amor. Uma história antiga, que remonta de um tempo há muito passado e esquecido. Não é um conto de fadas. É real.

Há muito, muito tempo, mais do que o que é possível se contar havia uma colina verdejante cercada por uma densa floresta. Um lugar jamais tocado por qualquer humano.

No topo desta, sentava-se altivo um dragão. Tão grande quanto um castelo, exibindo escamas pontiagudas e negras e cintilantes, asas capazes de fazer sombra em toda a colina, dentes terríveis e um olhar capaz de intimidar até o mais corajoso dos heróis.

Dizia-se que tal dragão acosava a região ao redor. Matava o gado, sequestrava donzelas, fazia chover fogo e enxofre sobre as plantações.

Indignado com tudo isto, um jovem de nome desconhecido, filho de fazendeiros, tomou coragem, armou-se e seguiu rumo à maldita colina. Iria matar o dragão. Ou morrer tentando.

Enfrentando os perigos e intempéries da grande floresta, nosso humilde herói chegou em seu destino.

Exausto, pensou: “É chegada a minha hora”.

Só que… A colina estava vazia. Não havia dragão algum. Um suspiro de alívio saiu de seus lábios. E, ao longe, ele ouviu um choro.

“Há alguém aqui?”

Sem pensar duas vezes, ele seguiu o som daquele lamento tristonho, até chegar no topo da colina.

E lá ele encontrou uma pessoa. Sentada no chão, abraçando as pernas com força. Longas madeixas negras cobriam braços e pernas.

Uma lágrima escorreu solitária pelo rosto se nosso herói sem nome.

Ele se aproximou com cautela. Não queria assustar ainda mais aquela pobre criatura. Nem queria cair numa vil armadilha.

A pessoa a chorar parecia não perceber o herói. Já este, num impulso, encostou sua mão no ombro dela.

— Por que choras?

E ela levantou a cabeça, a surpresa por haver alguém ali estampada em seu rosto vermelho e inchado. Uma garota. Não parecia ter mais do que vinte anos.

A jovem levantou os braços, balançando as correntes que a prendia dos pulsos ao chão. Havia algemas iguais presas nos tornozelos.

Sem hesitar, o herói sacou sua espada e golpeou com ela as correntes. Usou toda a força que tinha. Metal bateu com metal, ressoando pela colina. Faíscas se soltaram com o choque. A espada se esfarelou.

— É inútil. — murmurou a garota, que continuava chorando.

Nosso herói não ficou satisfeito. Não desistiria tão fácil.

As correntes pareciam estar fixadas apenas na terra macia da colina. Talvez conseguisse puxá-las.

E por metade de um dia ele tentou. Por metade de um dia, falhou miseravelmente.

Havia algo de errado e sinistro naquelas correntes.

— Há quanto tempo estais presa? — perguntou, tentando não se sentir tão inútil.

— Não sei… Muito… — respondeu a jovem, parando de chorar. Tanto tempo que ninguém falava com ela. Quanto mesmo? Ela suspira.

— Hmm… Quem ousou fazer esta atrocidade contigo?

— Uma criatura maligna. Não sei seu nome, mas o chamam de Olkmann… Eu acho…

Um nome familiar. No caso, sobrenome. Eram uma poderosa família na região. Não receberam a bênção da nobreza. Controlavam suas terras com punhos de ferro. Mas… A colina era longe de suas terras. E, por mais terríveis que fossem, por que prenderiam uma garota?

“Mas… E o dragão?”, ele se perguntou, lembrando-se de onde estava.

A jovem o encarou, subitamente irritada. “Eu fiz alguma coisa?”, ele pensou, olhando confuso e inquisitivo.

— Não… — os lábios da jovem sussurram, como se respondessem à pergunta não feita.

— Vou descobrir um jeito de tirar-te daqui. — murmurou ele, sem saber ao certo se deveria mesmo mudar sua jornada para salvar aquela garota.

— O jeito eu já sei… Mas…

“Mas?”

— É impossível… Só uma espada de ferro, forjada das escamas de um dragão por um mestre da fornalha… é capaz de romper estes grilhões. — ela respondeu, enquanto balançava as correntes, fazendo barulho.

O herói aguardou em silêncio, sentindo que a jovem ainda tinha coisas a falar.

— Só que… Não existem mais mestres da fornalha. Foram mortos muito, muito tempo atrás. E… se existe uma espada dessas já forjada… Ela desapareceu a ainda mais tempo.

— Eu voltarei para libertar-te! — exclamou o herói, levantando-se de súbito — Por favor, espere por mim.

A jovem não respondeu, observando o filho de fazendeiros descer a colina, rumo a uma missão impossível. Ele não tinha sido o primeiro…

— Seria mais fácil só matar o dragão. — ela murmurou, longe dos ouvidos do herói — É tudo o que ele quer…

A jovem voltou a abraçar as pernas, chorando por ela e por tantos tolos como aquele pequeno descendo a colina.

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