Capítulo 8 – A Reconstrução de Hochberg (Parte 4 – Final)


— Balthasar? — perguntou o sáurio quando o velho ferreiro se aproximou — Sou Marthrur Sthaharr, filho de Shaha Sthaharr. Hamur Grischarr me disse que o senhor requisitou nossa ajuda.

Era verdade, ele tinha se esquecido completamente dos construtores sáurios! Outra notícia que não seria muito bem recebida, mesmo sendo boa.

— Oh, sim. É verdade. — balbuciou Balthasar — Eu ainda não falei com o resto da vila sobre isso. Poderia me aguardar aqui um pouco mais?

— Oh sim! Claro, senhor! — responde o sáurio, praticamente sem qualquer sotaque.

O ferreiro achava engraçado ver aquela criatura musculosa de quase dois metros o tratando com tanto respeito. Nem tudo era tão ruim assim na vida.

E então ele seguiu até a praça de Hochberg, onde tinham colocado o sino da torre. Esta fora totalmente destruída no incêndio, só sobrando o sino. Precisava reunir todos e ali era o melhor lugar para isso.

Balthasar tocou o sino com vigor, bem alto, para que todos acordassem.

Sentou-se ao terminar, aguardando os moradores chegarem para saber o que se passava. A noite de vigília começava a cobrar seu preço: sentia-se exaurido.

Aos poucos as pessoas foram chegando, ainda sonolentas, e um tanto confusas. O que queria Balthasar tão cedo? Eles sabiam que ele tinha algo a dizer e estavam curiosos para saber o que aconteceu depois daquele estranho encontro com o líder dos sáurios. Admiravam-no por ter a coragem de conversar com aquelas criaturas. E estranhavam nada de ruim ter acontecido…

Ainda demorariam uns bons minutos até todos estarem na praça, tempo suficiente para o ferreiro descansar um pouco.

Vendo que todos já tinham chegado, Balthasar levantou-se, tirando o pó das roupas.

— Amigos e amigas. Companheiros e companheiras. — começou, engolindo seco — Eu chamei vocês todos aqui para falar duas coisas.

As pessoas se entreolhavam, assustadas. Percebiam que havia algo de errado. Viam o cansaço e sofrimento no rosto normalmente sério e compenetrado de Balthasar.

— Primeiramente, — continua o velho ferreiro — algo que eu considero como boas notícias, mas não vai agradá-los nem um pouco. — ele esperava que não houvesse muitos protestos, ajudaria muito…

— Ontem os sáurios vieram conversar comigo para discutir sobre uma compensação pela destruição da vila. — como ele previu, começou-se um burburinho assim que ele começou a falar dos sáurios. — Eles nos ofereceram pedras e muitos braços capazes para ajudar na reconstrução. E eu aceitei.

Balthasar ficou em silêncio, esperando a resposta dos que estavam a sua frente. Pareciam mais confusos que irritados: a ideia de que sáurios queriam ajudar era estranha para a maioria deles.

— Eles vão nos ajudar a consertar as casas? — perguntou alguém. Soava mais incrédulo que assustado.

— Sim. — respondeu o ferreiro.

Foi aí que as pessoas entenderam o que ele quis dizer e começou-se um burburinho. Balthasar não entendia bem o que falavam, mas tinha a certeza de que não estavam muito felizes com a notícia. Ele levantou a mão, pedindo silêncio.

— Eu realmente queria que todos vocês aceitassem. Não estamos em condições de recusar uma oferta assim.

— Mas foram eles que destruíram  a vila em primeiro lugar! — gritou uma voz na multidão. Balthasar não conseguiu ver quem foi.

— E foi por isso que eles vieram pedir desculpas. Eu sei que é pouco. Eles também. Mas corremos o risco de não terminarmos tudo antes do inverno. Mais gente e um bom material agiliza muito as coisas.

Ninguém podia argumentar contra aquilo. Muitos realmente corriam o risco de passar boa parte do inverno sem um teto. E, por isso, aquela massa de gente vai concordando relutantemente: os mais novos morriam de medo dos sáurios; os mais velhos se lembravam de como os mesmos sáurios foram um dos motivos da guerra entre as famílias nobres.

Balthasar observava tudo em silêncio. Sabia que o que estava prestes a dizer iria abalar a todos. Muito mais que a primeira notícia. Não sabia se estava preparado para lidar com tudo…

— Eu ainda tenho outra coisa a dizer. — começou a falar, com uma frieza que não sabia de onde vinha. — É sobre nossos defensores que desapareceram durante o saque.

Todos ficaram em silêncio. Era aquilo que realmente queriam saber: onde estavam seus vizinhos? Filhos? Pais? Avós? E se prepararam para o pior. O rosto serio do velho ferreiro denunciava as más notícias que estavam por vir.

— Bem… — era agora ou nunca — Eles realmente foram levados pelos sáurios como prisioneiros. E… no meio do caminho… foram abordados por uma tropa do exército do Reino.

As forças de Balthasar se esvaíram, estava prestes a cair ali mesmo em prantos. Mas não podia, era o líder de Hochberg, tinha de ser forte pelos outros.

Todos ali sabiam muito bem o que significava um encontro com o exército do Reino: morte. Esperaram Balthasar concluir sua fala.

— Todos… morreram. Todos.

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