Capítulo 8 – A Reconstrução de Hochberg (Parte 3)


Balthasar não conseguia dormir. O dia fora mais conturbado que imaginara. Descobrir que amigos, vizinhos, morreram de forma tão repentina e brutal? E que seu filho partiu numa missão suicida?… Abalava qualquer um.

Sentia-se frustrado. Não podia fazer nada! E não conseguia dormir… Era melhor trabalhar para ocupar a mente.

O velho ferreiro seguiu até a pequena oficina que mantinha em casa e acendeu o forno. Suar bastante e martelar um bom metal iria tirar a angústia de seu peito. Ou era o que esperava.

“Pelo menos não tenho mais que me preocupar com os irmãos Helten”, pensava enquanto atiçava o fogo.

No mesmo dia os três seguiram relutantes o líder dos sáurios, sem saberem o que a hedionda criatura queria com eles.

Levaram cada um um arco feito por Balthasar no dia. Simples, leves, eles eram feitos com os chifre de algum animal exótico que nunca viram na vida.

“Eles estão em boas mãos com Hamur”.

— E Meltse? Estaria também em boas mãos com Lamark? — murmurou para si.

Hamur falou muito bem de seu filho. Bem até demais… É mal de pai, não é verdade?

Era uma ilusão pensar que estariam bem. Afinal, o inimigo era Gaheris. Nunca o viu, mas já ouviu histórias, as mais terríveis possível.

Um monstro imortal com sede de sangue…

A maioria o conhecia como um severo e carismático comandante de guerra.

Enquanto pensava, o fogaréu preenchia a totalidade da fornalha. Já era o suficiente para fazer um trabalho despretensioso.

Ali Balthasar tinha alguns lingotes já preparados. Ele pegou qualquer um e o jogou na fornalha, até aquecer o suficiente para ficar bom de se trabalhar.

— Pelo menos o Reino está em paz… — murmurou enquanto encarava o fogo, lembrando-se de um passado pouco distante, quando as famílias nobres se matavam por motivo nenhum. E até que ele estava muito bem para o lado perdedor da guerra…

— E lá estou eu de volta às memórias ruins! — o ferreiro encarou o metal aquecendo, ainda longe do ponto. Pouco importava! Ele só precisava extravasar.

Balthasar tirou o lingote do fogo, que estava com uma cor amarela escura, e seguiu em direção à pequena bigorna que tinha ali.

E assim ele começou a martelar o metal aquecido, sem qualquer propósito. Sem dar muita importância ao que estava fazendo. Pouco importava. Martelar. Suar. Esquecer.

A cada martelada, ia engolindo a angústia, esquecendo as coisas ruins, apagando o filho da mente…

Era melhor… Alimentar a falsa esperança de vê-lo voltar era… adoecer. Não era que o antigo costume sáurio começou a fazer sentido? O de considerar um filho longe de casa, numa missão perigosa, como morto até sua volta…


O dia amanheceu em Hochberg e Balthasar estava com olheiras. Encarando o pedaço de metal que trabalhou durante a noite angustiante, soltou uma sonora gargalhada: era a pior lâmina que ele tinha forjado na vida.

Mesmo assim, ela era importante. Com seriedade, ele a pegou e saiu de casa, seguindo em direção à saída da vila.

Ainda era bem cedo e todos dormiam. Melhor…

Sozinho, o velho ferreiro saiu da vila e se afastou um pouco. Até parar num morro de frente para a Hochberg.

Onde parou, ele se ajoelhou e cravou a lâmina disforme na terra.

— Bem… Meltse Eisen, meu filho… que descanse em paz…

Ali, ajoelhado, começou a chorar. Pelos mortos. Martha, Rachel, Marco, Ralph, Colodi, Zepelli. E Meltse: vivo, mas tão longe e numa situação tão desesperadora que era melhor que estivesse morto.

Também lamentou os sáurios. Não conhecia nenhum deles além de Saha, que já salvara sua vida uma vez, muito tempo atrás. Já os outros… Todos tão jovens…

Uns bons minutos se passaram enquanto Balthasar estava ali ajoelhado, em luto.

Enxugando o que ainda tinha de lágrimas no rosto, ele se levantou lentamente. Como iria contar aos outros? Seria um dia de dor e pranto… Era horrível.

O ferreiro seguiu lentamente de volta para Hochberg, ainda sem saber como o restante da vila iria reagir à noticias que ele tinha para dar.

Chegando ao que já fora a entrada da vila, Balthasar se encontrou com um jovem sáurio sentando numa pedra. Aguardava alguém.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s