Capítulo 8 – A Sorte Bate A Porta (Parte 3)


Ainda era meio da tarde quando Meltse e Lamark saem da estalagem. A vila continuava praticamente deserta. Ouve-se o barulho de crianças brincando em alguma rua próxima.

— Mas que diabos você fez? — pergunta o ferreiro, sussurrando. A rua podia estar vazia, mas não queria arriscar qualquer ouvido desavisado.

— Ha! Então você viu? — fala o sáurio, sorrindo — Bem… Eu não fiz `nada’ demais. — o humano podia sentir que havia um sorriso maroto por baixo do manto e chapéu.

— Nada? — insiste.

— Eu te conto quando estivermos fora da vila. — responde — E você não vai gostar nem um pouco.

“Que ótimo! O maldito vai fazer alguma besteira. Ele ainda se lembra que não queremos chamar a atenção?”

O pouco tempo que teve de convivência com aquele maldito sáurio já o conhecia o bastante para saber que seria impossível fazê-lo falar. Ou mudar de ideia. Qualquer que seja o misterioso plano… Também sabia que o `poderoso’ líder Grischarr não era de fazer coisas impensadas. E que… Quando seus planos falhavam… Eles davam MUITO errado.

Calmamente os dois seguem para a saída da vila, como se fossem prosseguir viagem. No entanto, logo após alguns metros na estrada, Lamark puxa Meltse mata adentro, longe da vista de um eventual transeunte.

— Então, qual é seu plano magnífico? — pergunta o humano, debochando.

— Certo certo. Eu falo, — suspira o sáurio — mas não vai gostar nem um pouco… — respira fundo — Você não gostou nem um pouco daqueles dois malditos comerciantes também, certo? Eles mereciam uma boa surra e nunca mais entrar na vila.

Com aquilo Meltse concordava mesmo. Era o tipo de comportamento inaceitável em Hochberg. Nem mesmo se um nobre de alguma família rica e influente chegasse e agisse como se pudesse fazer qualquer coisa, ele seria tolerado. Ter posses e renome não significavam muito no caso. Seu pai trataria de expulsá-lo na hora.

— Bem. Pelo que vimos, não vai acontecer nada com eles…

— Sim. — murmura o ferreiro — Isso é muito frustrante!

— E é por isso que… vamos roubá-los!

— Quê?!

“Lamark tem razão. Não gostei nem um pouco do plano.” Não era muito certo combater o errado com algo mais errado ainda. Mas o maldito nem considerava que roubar fosse algo ruim…

Meltse encara seu companheiro de viagem, insatisfeito.

— Eu sei. Eu sei. — fala o sáurio pedindo paz — Não precisa me ajudar. Só não me impeça, por favor.

O ferreiro acena, concordando. Não tinha decidido ainda, mas queria ver o que Lamark iria fazer. Se não gostasse do que visse…

Já o sáurio suspira aliviado. Sem dar mais atenção ao humano, ele começa a vasculhar suas bolsas a procura dos itens que precisava para seu plano.

Eram coisas que Meltse nunca tinha visto na vida. Em cima de um lencinho branco, Lamark vai colocando o que separou: um estranho pó branco sem cheiro; folhas pequenas de aroma pronunciado e o famigerado punhado de cabelo que ele cortou de um dos homens da estalagem.

“Será algum tipo de magia?”, pensa o ferreiro, que nada entendia daquilo e ficava sempre admirado com as habilidades do sáurio.

Este então fecha o lenço com as coisas dentro, apertando o conjunto na palma de sua mão, concentrado. Ele murmura as palavras mágicas enquanto abre lentamente a mão.

O lenço estava dobrado na forma de uma borboleta, que ganha vida e começa a voar a ermo. Sem falar nada, Lamark a segue, enquanto Meltse o acompanha logo atrás, curioso.

A borboleta segue floresta adentro, rodeando a vila. Não voa por mais do que quinze minutos. Numa clareira dentro da mata ela encontra uma tenda esverdeada, e então volta a ser apenas um lenço.

Lamark para um pouco antes de chegar na borda da tal clareira. Uma ação prudente, já que havia dois guardas próximos da tenda.

Pareciam ser mercenários. Não usavam uniforme algum. Ambos seguram uma lança curta e tem uma adaga embainhada no cinto. Desatentos, jogavam cartas ao redor de uma fogueira.

— E agora, o que você vai fazer, ó sábio e nobre príncipe sáurio? — murmura Meltse, sarcástico, ao ver os dois guardas.

Lamark responde levando o indicador aos lábios pedindo silêncio. Não eram dois mercenários quaisquer que iriam impedir-lhe de dar uma lição nos malditos da estalagem.

Silenciosamente agradecia-se por ter se dado ao trabalho de levar todo o seu material. Sem ele não poderia fazer muita coisa. Em suas bolsas, ele tinha a solução para quase todos os problemas, inclusive um jeito de dar cabo nos guardas sem causar alarde. Ou a desaprovação de Meltse.

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