Capítulo 8 – A Sorte Bate A Porta (Parte 2)


Uma hora depois, que foi uma espera torturante para Meltse e Lamark e irritante para os dois homens, o jovem volta com uma enorme bandeja carregada. Lá estavam um bom pedaço de carne assada e temperada, duas tigelas fumegando, uma  pilha de pães pretos que não se sabia como ela se mantinha intacta com o movimento, e uma grande jarra cheia de água.

Agora como o garoto conseguia levar aquilo tudo tranquilamente era uma incógnita para o ferreiro.

— Aqui está sua refeição — fala o rapaz, colocando a bandeja em cima da mesa.

Olhava de relance para os outros dois homens na mesa próxima. Mantinha o sorriso no rosto, mas havia um que de frustração em suas feições.

— Precisam de mais alguma coisa? — o sáurio responde um não com a cabeça. — Bem, se me dão licença. — e o atendente sai para atender a outra mesa, não sem antes despedir-se com um gesto cortês.

Ferreiro e mago começam a degustar a comida, calados. O gosto estava ainda melhor que a aparência: a carne estava no ponto, a sopa bem temperada e os pães fresquinhos. Era tão bom comer uma refeição quente e fresca depois de dias a base de carne seca e nada mais.

E então Meltse e Lamark ouvem uma batida forte na outra mesa. Os dois homens pareciam bem irritados enquanto o pobre rapaz levantava as mãos em sinal de paz.

— Que porcaria de espelunca é esta que deixa as pessoas esperando por horas?!! — esbraveja o homem de barba.

— Me desculpe, senhor. Não costumamos receber clientes a esta hora. Só estou eu no momento, cuidando de tudo. Sinto muito pela demora. — o atendente fazia de tudo para manter o sorriso no rosto. Parecia não ser a primeira vez que aqueles dois senhores pisavam na estalagem.

— Isso é conversa fiada! — retruca o outro — É melhor você trazer sua melhor cerveja! Agora!

— A gente não deveria nem pagar! Com um atendimento desses! Demora maldita. — comenta o de barba — Mas não somos injustos, somos? Xô! Traga algo pra gente beber!

— Sim, senhor! — sai o rapaz, o sorriso já parecendo um rosnado. Ele some mais uma vez estalagem adentro, para ressurgir instantes depois com outra bandeja, esta carregada de cerveja.

E assim se segue por um bom tempo. Os dois se embebedando mais e mais, enquanto o rapaz os abastecia com mais e mais cerveja.

Conforme bebiam, qualquer resquício de educação que eles já não tinham ia desaparecendo. Se antes eles esnobavam e menosprezavam, agora xingavam abertamente.

Lamark continua comendo normalmente, enquanto tomava cuidado para não se revelar. Já Meltse perde o apetite, comendo à força. Murmurava, ranzinza.

O sáurio só ri ao ver o amigo irritado.

— Foi o que falei. Todos os comerciantes são assim — comenta, baixinho — Coma e não deixe esses malditos lhe tirarem o apetite.

O humano morde um pedaço da carne, a contragosto: a comida tinha perdido todo o sabor. Se estivessem em Hochberg, ele os teria expulsado da vila. Podiam ser comerciantes, nobres, podres de ricos. Pouco importava. Ali parecia ser diferente\ldots

Terminando de comer, Meltse chama o atendente para pagar a refeição. O sorriso tinha sumido completamente de seu rosto. Parecia irritado e cansado.

— Aqui está. — fala Lamark, entregando algumas moedas — Pela refeição. E pela paciência de aturar aqueles dois ali.

O jovem sáurio estava pagando o triplo do que devia. Com isto o rosto do rapaz se ilumina, agradecido.

— Garoto, você não precisa aguentar esse tipo de gente só porque eles tem dinheiro. — murmura o ferreiro — Eu teria dado um belo pontapé nos dois se eu estivesse no seu lugar.

O rapaz ri do comentário, abrindo um genuíno sorriso em agradecimento.

— Muito obrigado. Eu queria que meus pais pensassem como vocês. Muito obrigado mesmo. Se voltarem por aqui algum dia, eu garanto uma refeição para vocês! Por conta da casa.

Meltse e Lamark se levantam, despedindo-se do rapaz e agradecendo pela comida. Era pouco provável eles voltarem a passar ali. Nem sabiam se ainda estariam vivos mês que vem!

O humano sente-se frustrado. Tinha pena do pobre rapaz sendo obrigado a atender aqueles dois esnobes. Já o sáurio? Este tinha um pequeno plano. Ou quase isso. Ele sorri por baixo do capuz. Só não sabia se seu amigo concordaria com o que estava pensando em fazer.

Propositalmente ele passa bem próximo aos dois comerciantes. Num movimento rápido e quase imperceptível, Lamark corta um pedaço de cabelo de um deles e guarda em uma de suas bolsas. Precisaria daquilo para o seu “plano”.

Ninguém percebe a ação além de Meltse.

“Mas que diabos?\ldots ”. Perguntaria quando saíssem dali.

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