Capítulo 8 – A Sorte Bate A Porta (Parte 1)


O dia amanhece e humano e sáurio levantam acampamento, assim continuando sua marcha em direção a Lamus.

Aquele já era o terceiro dia de viagem e Lamark estava um pouco preocupado com a velocidade com a qual avançavam. Muito lento. No entanto, Meltse não estava acostumado com longas caminhadas. Afinal, era melhor ir devagar e sempre que rápido e cair exausto no meio do caminho.

Enquanto caminhavam, a estrada começa a ficar menos deserta. Os dois cruzam com algumas pessoas durante o dia. A maioria eram caçadores procurando o melhor lugar para adentrar na floresta e fazendeiros seguindo para os campos.

E por onde passam, os transeuntes estranham as roupas de Lamark, mas não esboçam reação. Por morarem nos limites do Reino, eram acostumados com as estranhezas que apareciam.

Se dessem sorte, era capaz de haver um vilarejo por perto. Seria um alivio para Meltse. Ele estava todo doído e sente falta de uma cama macia e quente. Achava horrível dormir ao relento. Já Lamark pouco importava, com sua experiência em viagens e campanhas. Conseguia dormir em qualquer lugar. A relva era sempre macia e convidativa.

Em pouco tempo eles encontram um vilarejo, como desconfiavam. Era pouco depois de meio dia quando chegam às portas de uma bucólica vila de nome desconhecido. Não havia muito movimento além de algumas crianças que brincavam numa fonte. Suas mães estavam próximo, o olhar atento observando tudo.

Elas avistam os dois forasteiros. Dando pouca importância, voltam a conversar entre si, como se nada de estranho tivesse acontecido. Eram indiferentes a figura do sáurio oculto pelo manto pesado e chapéu pontudo. Nada de novo sob o sol.

Humano e sáurio procuram por uma pousada ou estalagem onde pudesse comer e descansar um pouco. Meltse agradece mentalmente a pausa, mal sabendo que Lamark pretendia partir assim que forrassem as barrigas.

O vilarejo era pequeno, menor que Hochberg. Não precisaram andar quase nada para achar a única estalagem do lugar.

Estava vazia. Um jovem alto e magro usando um avental limpava as mesas. Ele não devia ter mais do que quinze anos. Ao ver os dois esperando na porta da estalagem, o rapaz guarda o pano que usava num bolso qualquer e prontamente os recepciona com um largo sorriso:

— Boa tarde! Bem vindos a estalagem do Louco Caolho! — fala o atendente, entusiasmado — Viajantes de outro reino?

— Sim. — responde Lamark por baixo do manto e chapéu, aproveitando a desculpa que o rapaz tinha criado tão prontamente para suas estranhas roupas.

— Ora! Claro que são. Que bobo fui! Devem estar a caminho de Lamus, não? Ouvi falar que tem uma grande caravana lá indo pra Athos. — o atendente segue falando enquanto leva Meltse e Lamark para uma mesa vazia — Não costumamos receber viajantes a esta hora. Muito cedo, se me permitem dizer. Só estou eu no momento, então por favor me perdoem se eu demorar para atender seu pedido.

Meltse dá de ombros. Não se importava com qualquer demora que pudesse ocorrer. Afinal, precisava descansar, esticar as pernas, e comer uma boa refeição enquanto isso.

— À noite geralmente é mais cheio aqui, principalmente nesta época do ano. — subitamente o atendente bate na própria testa, como quem tivesse se lembrado de algo importante — Que cabeça a minha! Vocês devem estar cansados e famintos e eu aqui jogando conversa fora!

— O que vão querer para comer? E para beber? Vão precisar de um quarto também? Talvez não. Estão um pouco atrasados, não é? Mas caminhar pelas estradas durante a noite também não é bom. Tem sáurios por aí!

Meltse olha de relance para Lamark enquanto esticava as pernas quando ouve a palavra “sáurio”, se segurando para não cair na gargalhada. Mas também não gosta nem um pouco ao ouvir que “estavam atrasados”. Queria tanto dormir numa cama…

— Por favor, nos traga sua melhor carne, um bom ensopado e alguns pães. — responde Lamark, também tentando não gargalhar. Ele era o sáurio por aí!

— Nenhuma bebida, senhor? — pergunta o jovem, sem tirar o sorriso do rosto.

— Não, não. — fala o sáurio com um gesto de dispensa — Nada de cerveja, não é verdade, amigo? — Lamark iria implicar com o porre de Meltse por um bom tempo. Já este encara irritado — Água já basta.

O rapaz sai prontamente, com um pano limpo no ombro e dobrando a manga da camisa. Era ele quem iria preparar a comida?

Após desaparecer estalagem adentro, humano e sáurio relaxam um pouco. Tinham algumas coisas a discutir. E estavam achando muito estranho terem sido deixados ali sozinhos. O jovem devia estar realmente sozinho no momento.

— Você não vai esquecer nunca, não é? — pergunta Meltse, mais descontraído que irritado.

— Do quê? De você bebendo até desmaiar? — ralha Lamark — Jamais! Fui eu quem teve de carregá-lo pra lá e pra cá.

— Bem… Mudando de assunto. A gente vai sair assim que terminarmos de comer, não é verdade? — o ferreiro não queria ouvir a resposta, mas precisava perguntar, não era? Não estava com a menor vontade de continuar a caminhada. Temia saber a resposta.

— Claro! — responde prontamente o sáurio — Não temos nada a fazer aqui e estamos mais atrasados que eu imaginava.

Meltse suspira desapontado:

— Eu precisava de uma cerveja agora… — murmura — Pra aceitar melhor esta notícia.

— Hunf! Se você não fosse tão lento, a gente já estaria em Lamus!

O humano revira os olhos. Não acreditava que o sáurio queria que eles andassem mais rápido ainda. Era um absurdo! Mas não podia discutir, não é? O maldito entendia muito mais de caminhadas do que ele.

Enquanto conversam e esperam pela refeição, duas outras pessoas entram na estalagem. Eram dois homens de meia idade. Um deles tinha uma barba longa e cheia, o outro apresentava a cabeça calva. Ambos vestiam roupas caras, de qualidade. Provavelmente eram comerciantes. Não pareciam nobres, nem tinham o porte físico dos mesmos.

Eles vão chegando e se sentando, sem qualquer cerimônia e encaram Meltse e Lamark com certo desdém. Tamborilavam os dedos na mesa, em sinal de impaciência.

Ninguém mais falava embora não houvesse motivo algum. Uma aura de tensão vai tomando o ambiente. O tamborilar na mesa começa a irritar o ferreiro, que não tinha gostado nem um pouco dos dois homens.

O sáurio acena negativamente com a cabeça enquanto segura o humano pelo ombro. “Deixe estar. Não queremos chamar a atenção”, era o que Lamark dizia silenciosamente com o gesto.

Meltse só queria sair dali no momento, mas concorda com o amigo. Era melhor ficar quieto e esperar pela comida.

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