Capítulo 8 – Uma vida nova


Meltse e Lamark já estavam na estrada há um dia. Aquela viagem começou tão repentinamente quanto tantos outros eventos ocorridos no último mês.

Esta, no caso, inicio-se com uma maldita lista de itens impossíveis. Estavam indo naquele exato momento para Lamus: uma pequena cidade comercial situada a sudeste de Hochberg. Não produzia muita coisa, mas era ponto de encontro de diversas caravanas, onde paravam para descansar e decidir o próximo rumo a seguir.

— Daqui a uma semana vai chegar uma caravana em Lamus. Uma que vai para a capital. Então, seria bem interessante que vocês estivessem nela. Vai ajudá-los a encontrar alguns dos itens. — disse Diamante um dia atrás.

Como ele sabia disso estando enfurnado nos confins do reino numa cidade de sáurios fugia completamente a lógica na mente de Meltse. Mas quem era ele para questionar o ancião? Principalmente com Lamark aceitando prontamente a sugestão!

Era um total absurdo! Só os metais eram quase impossíveis de se achar. E era a única coisa que poderiam encontrar na caravana ou na capital. Se não tivessem os metais em si, saberiam alguma coisa pelo menos.

Isto é… Se eles conseguissem chegar em qualquer lugar sem serem presos ou mortos. Não era nem um pouco comum um sáurio andando por aí.

O ferreiro encara o vulto que o acompanhava. Vestindo um pesado manto azul marinho que cobria dos pés a cabeça e um enorme chapéu pontudo, Lamark chamava muita atenção! A pior ideia que já ouviu na vida! Ao menos não havia nada escamoso aparecendo…

— Isso não vai dar certo… — murmura o humano, nervoso e cético.

Uma sonora gargalhada soa de algum lugar de dentro do manto, destoando do figurino misterioso e sombrio:

— Se não vai dar certo eu não sei, mas estou adorando tudo isso! — exclama o sáurio — Pelo menos agora eu pareço um mago!

Manto e chapéu foram ideia de Alexsander, um presente de mestre para aluno. O mais brilhante de todos.

— Você está chamando muita atenção!

— E chamaria de qualquer jeito! Vamos deixar as preocupações para depois. Os problemas de amanhã são para o eu de amanhã!

Meltse não gostava muito daquele modo de pensar. Odiava imprevistos e improvisações: eram a porta da ruína. E o que diabos eles fariam se Lamark fosse descoberto? Correr? Lutar? Não pareciam ser boas soluções.

E assim os dois passam o dia conversando, discutindo. Despreocupados, já que ainda estavam nos limites do Reino e poucos passavam ali.

— Lamark, se nós conseguirmos encontrar algum dos metais com um comerciante, o que a gente vai fazer? Nem todo o dinheiro do mundo seria capaz de comprar Ukithril. Imagine Mithril!

— Ah, muito simples. Nós roubaremos! — Lamark não parecia se importar muito com roubar. Já Meltse…

— Não me parece muito certo — comenta, tentando não se irritar com seu companheiro de viagem.

— Errado é ficar acumulando coisas para si. — responde o sáurio, tranquilo — Engordar com a miséria dos outros? Eu não me importo em pegar de gente assim.

O humano não conseguia concordar nem um pouco com aquele raciocínio. Quem e era ele pra decidir que alguém era ou não rico demais? Além do mais, ele foi ensinado a viver de trabalho honesto. Roubar era errado e podia destruir a vida das pessoas!

— Ah! Então somos ricos e gordos para você, hein? As pessoas de Hochberg? — dispara, ácido, devido a raiva que ia crescendo em si mesmo.

— Não! — exclama Lamark — Aquilo foi… uma medida desesperada! — e então ele percebe o incomodo crescente em Meltse. Assuntos espinhosos assim só surgem quando o outro lado está irritado — Mas… Estávamos passando fome.. E vocês teriam comida de sobra! Eu… sinto muito… Foi uma verdadeira catástrofe.

Já era noite e ambos estavam cansados e famintos. E irritadiços. Ali mesmo param para descansar e se acalmar. A conversa não seguia por um bom caminho.

Um silêncio pesado paira entre os dois enquanto Lamark prepara uma fogueira. Sentia-se muito triste. Afinal foi tudo culpa dele. O incêndio. A morte de todos… Será que algum dia ele se perdoaria por tudo aquilo? Tornaria-se o sáurio que Henkel achava que ele era?

Enquanto isso, Meltse estava emburrado e não queria nem olhar para Lamark. Não que toda a tragédia tenha sido culpa dele. O fogaréu foi, mas o ataque do maldito exército? Eram ambos vítimas ali…

Lamark começa a esquentar duas porções de comida de viagem: carne seca e um pouco de arroz mal cozido.

— Eu realmente sinto muito por tudo — murmura o sáurio, entregando uma tigela fumegando para o humano — Posso pedir milhões de desculpas que não valerão de nada… Não era pra ter sido daquele jeito.

O ferreiro meneia a cabeça, discordando. Estava irritado com Lamark, mas vê-lo daquele jeito o deixava muito triste. Às vezes se esquecia que o sáurio também sofreu com tudo. Era tangível a culpa que o jovem Grischarr sentia por tudo o que aconteceu e a angustia de não ter podido fazer coisa alguma.

— Você já pediu desculpas. — responde Meltse — Eu… fiquei irritado… Só isso. Me desculpe por trazer esse sofrimento todo a tona por egoísmo meu.

Lamark só acena, em silêncio. Aquele dia maldito os atormentaria até o fim de seus dias.

O sáurio admirava a força de vontade daquele humano. A maioria teria sucumbido à loucura. Embora não fosse a mesma coisa que ver Gaheris, ou Yassa, em ação, o maldito exército era bem capaz de induzir insanidade.

Naquela noite sonhariam com o massacre. Um pesadelo sem fim. Onde viam seus amigos morrerem de forma horrenda. Sem poder fazer nada. E seguir vivendo com a mancha da morte em suas almas. Alimentando a fornalha da vingança. Que não lhes trará nada além da morte certa…

Seguir em frente para cumprir o simples embora difícil propósito de continuar vivendo até o fim do dia.

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