Capítulo 7 – A Lâmina Negra de Hazar


Loriel sai caminhando sem olhar para trás. Se olhasse, temia ver Grael, com seu sorriso sádico, enfiando uma adaga em suas costas.

Não… Tinha que fingir que nada aconteceu, nada sabia. Ela sairia dali, não importa como!

A cada passo, a elfa se sente mais e mais cansada. Suava frio. Não podia ser apenas medo. Havia algo mais ali. Alguém a seguia. Mas em momento algum ela se vira para averiguar. Sentia que não era uma boa ideia.

As ruas estavam lotadas. A noite era a hora favorita dos elfos. Pelo menos dos da tundra, acostumados com o frio e o escuro. Todos alheios ao que estava acontecendo.

“Deve ser algum feitiço oculto…”, pensa Loriel.

Ela tinha nascido com uma sensibilidade fortíssima em todos os seus sentidos, principalmente os mágicos. Era quase impossível alguém usar um feitiço perto dela sem que ela soubesse. Ela não sentir nada a deixava mais apreensiva.

Precisaria decifrar o que estava acontecendo antes de tentar fugir daquele inferno. Já sabia que alguém a seguia, mas havia mesmo magia afetando seus pensamentos, aumentando seu medo? Então a elfa percebe um filamento de magia atingi-la. Seu coração começa a bater mais rápido.

Rezava para que não fosse o duque em pessoa a perseguindo…

Ainda faltava pelo menos meia hora até chegar na entrada de Fafalar. Meia hora para descobrir o que exatamente tinham feito com ela. Tudo isso enquanto estava a beira de um ataque de pânico. E nunca, nunca olhar para trás.

Loriel se concentra em seu próprio corpo, a procura de algo errado. E para a sua surpresa, encontra algo de imediato: uma adaga, negra, fincada em seu tronco, atravessando o peito.

Ri com a ironia. Não soava nem um pouco sã naquele momento.

“Nenhum de vocês estúpidos estão vendo isto?”. Não conseguia pensar direito. Pensar era perigoso…

Se pensasse em algo ruim, o que aconteceria? A faca estava ali, não estava? Ainda não entendia como funcionava o feitiço. E a estranha certeza de que morreria se ela se virasse? O um medo insano enchia sua mente.

A confusão a deixava tonta. Já fazia um tempo que ela não via mais as outras pessoas, embora soubesse que estavam bem ali.

A magia mexia com sua cabeça. Deixava-a medrosa. Insana. Desorientada. Mas não era apenas isso, não é verdade? Havia mais alguma coisa ali. Podia sentir vagamente. O que seria?

A visão de Loriel começa a desfocar. Escurecer. Perdendo as cores. E então o breu. Estava cega. Não podia ser boa coisa.

Começava a ter certeza de que não sairia viva dali. Era um feitiço bizarro.  E muito forte. Complexo… Nem mesmo Grael conseguiria fazer algo assim. Ou será que?… Não… O duque era um elfo das selvas. Suas magias envolviam plantas. Não era de sutilezas.

Aquilo era um feitiço de medo? Ou de ilusão? Nenhum dos dois… E ambos. Mexia diretamente com os sentidos. E trazia a realidade qualquer coisa que a vítima imaginasse?

Ela já ouvira falar de algo assim antes! Era uma magia da escuridão e da noite, da lua, de Hazar em sua faceta mais sombria, quando negra e invisível aos olhos mortais. Tão poderosa que podia ser percebida por qualquer um! E matava o usuário…

Não fazia sentido… E também não podia ser outra coisa. Tinha que arriscar um contra-feitiço o quanto antes. Mais um pouco daquilo a deixaria debilitada demais parar contra-atacar.

Loriel começa a cantarolar baixinho, na esperança de que a música alegre necessária para a contra-mágica viesse até sua mente. A elfa já não ouvia mais…

Concentrando-se, limpa a mente de todo o medo e preocupação. Ou pelo menos tenta. Era difícil no breu de quase não existência em que se encontrava.

Com uma força de vontade que não sabia que tinha, Loriel vai tecendo sua contra-mágica: um feitiço de paz, felicidade, compreensão…

Num piscar de olhos, a maldição deixa seu corpo. Os sentidos voltam subitamente, deixando-a atordoada. O medo continuava, mas não era mais tão excruciante. Conseguia pensar racionalmente. A adaga negra some de seu peito.

Se a contra-mágica funcionou, significava que sua dedução estava certa. Mas quem no mundo seria capaz de usar uma maldição daquela magnitude  sem emanar toneladas de mana?!

Isto logo a elfa descobriria. Precisava contra-atacar antes que seu perseguidor tivesse chances de reagir.

Com um movimento rápido e gracioso, ela invoca o frio do pior inverno na direção donde sentia olhos malignos a observando.

Só então tem tempo para respirar e ver onde estava. Era fora da cidade. A floresta brilhava fantasmagórica a sua frente. Assim como um vulto.

Este consegue desviar do pior da rajada de gelo. Uma de suas pernas estava congelada ao chão. Era difícil identificá-lo.

Loriel hesita por alguns instantes. Continuar a atacar? Ou fugir? Não conseguia discernir se possuía poder suficiente para deter seu inimigo ou não.

Não conseguiria… O vulto encara sua perna congelada e, como quem tira a poeira da roupa, desfaz o gelo. Segue então calmamente em direção a Loriel.

Ela sente o pânico novamente preencher sua mente. Não poderia derrotá-lo Era melhor fugir. Precisava pará-lo por mais tempo. Sem saber se conseguiria, começa a preparar uma nova magia, mais poderosa. Contava com o excesso de confiança que o estranho demonstrava.

A elfa branca dança novamente, criando seu feitiço ofensivo mais poderoso. Pouco antes de seu adversário alcançá-la, um fortíssimo vento glacial atinge o vulto em cheio. Ele estava perto demais para desviar.

Congelado do corpo para baixo, seu rosto agora era visível para Loriel:

— Ufiel?…

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