Capítulo 7 – A Cidade Impossível (Parte 3 – Final)


Já com as barrigas forradas e o perigo aparente bem longe, o inusitado grupo discute sobre o que fariam em seguida.

— Acho que estamos dependendo daquele estranho elfo — comenta Hafix.

— Hum hum… Ele nos sugeriu encontrá-lo depois de descansarmos. — murmura Raffléia — Mas como?..

Os quatro ficam matutando, sem saber exatamente como iriam encontrar Galiel novamente.

— Bem… Esta cidade é bem estranha. — observa o humano — Elfos e humanos não dividem um lugar desse jeito. E esse idioma que eles falam! Não parece élfico, nem mesmo o antigo. Também não parece com o idioma comum… Onde fomos parar nessa confusão toda?

Eles ficam em silêncio. Ninguém sabia a resposta. Estavam mais preocupados em se afastar o mais rápido possível de Fafalar. Que importava para onde estavam indo?!

Seire concordava com Hafix. Nunca tinha saído do monastério antes, mas os livros sempre falavam como elfos eram reclusos, arredios e extremamente territoriais. Não gostavam de humanos. No máximo toleravam. Sentiu isso muito bem em Fafalar.

E ali, naquele lugar murado, as duas raças pareciam viver juntas sem qualquer problema. Até os elfos pareciam um tanto humanos…

— Ficarmos aqui ruminando por horas não vai resolver nada. — fala Arth, quebrando o silencio.

— Verdade. — a sáuria dá de ombros — Podemos sondar a cidade enquanto procuramos o nosso benfeitor.

Assim decidido, os quatro arrumam suas coisas e partem do quarto. Para uma longa e infrutífera busca: o lugar era grande demais para se encontrar alguém assim, do nada.

Ao abrirem a porta, a loba sente um odor conhecido. Não conseguia se lembrar o que ou quem era. Só sabia que já o havia sentido antes… Tinha que arrumar um lugar na memória para essas coisas novas. Agora não era apenas aparência e nome: tudo tinha cheiro.

Chegando no térreo da estalagem, o grupo é surpreendido por um grave e sonoro `Io!’. Era Galiel. Na hora Seire compreende que o odor de antes vinha dele. E então se lembra: não era cheiro de elfo.

Os olhos de Raffléia brilham ao ouvir a voz. Sabia se tratar de alguém intrigante e de bom coração.

A jovem clériga sentia o mesmo, instintivamente. Não parecia emanar más intenções. Seu coração batia normalmente, não estava nervoso, assustado, muito menos mentindo ou escondendo qualquer segredo. O elfo abre um sorriso sereno e radiante:

— Vocês descansar bem? Não ter problemas? — pergunta.

Vestia outras roupas, igualmente ornadas e de qualidade. Seus cachos estavam mais selvagens. Seire demoraria a se acostumar com o seu jeito de falar.

Centauro e loba acenam afirmativamente com a cabeça, dizendo que sentiam bem. A sáuria sorri, mostrando todos os seus dentes. Seire sabia que se tratava de pura felicidade, mas o que pensaria o elfo vendo aquela bocarra escamada recheada de dentes pontiagudos?

— Não tivemos problema algum, dormimos como pedras. — responde o humano.

Galiel parece ficar muito satisfeito com a reação do grupo:

— Bom. Bom. Agora cumprir resto de promessa. Mapa, certo? — indaga. Todos respondem que sim. — Eu ter mapas em casa. Poder acompanhar?

“Ele quer que o sigamos?”, pergunta-se a jovem clériga. E a resposta foi imediata e silenciosa: Galiel vira-se, seguindo em direção à porta; sem pressa caminhando até ela. Os outros seguem logo atrás. Não ficaria ali sozinha, não é verdade?

O sol brilhava e aquecia. Deve ser pouco depois de meio dia. Por quanto tempo dormiram? Qualquer noção de tempo se foi a muito tempo. Só importava se era dia ou noite. Horas? Era luxo.

O grupo vai seguindo Galiel em silêncio, mais ocupados em observar a cidade que qualquer outra coisa. O passo despreocupado permitia tal contemplação.

O elfo segue caminhando com segurança e desenvoltura: estava em seu habitat natural. Cantarolava uma música alegre.

De tempos em tempos, alguém parava para cumprimentá-lo. Ou para pequenas conversas. Não havia a menor pressa de se chegar a qualquer lugar.

Enquanto isso, Seire fica desnorteada com a quantidade de odores e barulhos. Era gente demais num lugar só! Uma algazarra que doía-lhe os ouvidos. A mistura de cheiros: o suor das pessoas, os temperos, os animais, e sabe-se lá mais o que, deixavam-na enjoada.

Os outros não sentiam nada daquilo. Não tinham os mesmos sentidos aguçados. Raffléia e Hafix estava extasiados, muito ocupados admirando os arredores para reparar na loba. E Arth estava ele mesmo incomodado demais com outras coisas.

Mas Galiel percebe. Já tinha visto outra pessoa ficar daquele jeito ao visitar Balmar. “Oh, então ela é uma loba?”, pensa. E assim, o elfo para numa banca que vendia uma infinidade de ervas e raízes de todos os tamanhos e cores. E cheiros!

Ele conversa um tempo com a vendedora, uma elfa esguia, com folhas no lugar dos cabelos e pele rajada. “Por que estamos demorando tanto?”, pensa Seire, ranzinza.

Galiel compra arlo: uma raiz vermelha, com propriedades sedativas. Um humano ou elfo tomando seu chá caia num sono pesado por umas dez horas. Já um lobo…

— Tome. Mastigue. — fala o elfo, entregando a raiz nas mãos de Seire — Faz você melhorar. Não sentir mais tudo.

A jovem encara a raiz vermelho sangue em suas mãos com desconfiança. Os outros três ficaram sem entender o que se passava. A loba encara Galiel. Seus batimentos continuavam normais. Não exalava qualquer nervosismo.

Ela coloca um pedaço na boca e mastiga. `Amargo’. Em instantes consegue sentir os efeitos. Os sons vão ficando mais abafados. Os cheiros, desaparecendo.

Sua boca fica dormente, mas o enjoo passa como que por mágica. E também a dor de cabeça. A que nunca parou de sentir totalmente. E de repente o mundo volta a ser como antes. Antes de transformar-se num monstro…

— Obrigada. — murmura.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s