Capítulo 7 – A Cidade Impossível (Parte 2)


Um bom tempo se passa até que a loba consegue se acalmar: pelo menos não havia se transformado.

Os braços não carregavam sinal da auto agressão. Só os pequenos filetes de sangue denunciavam o ocorrido. Tinha que limpar aquilo.

Observa. Precisava de uma bacia com agua. Ou algum lugar para se lavar. Não queria que os outros soubessem que ela teve um ataque de pânico.

Logo a garota encontra algo que se parece com uma bacia. Estava num pequeno cômodo à parte, pregada na parede. Só que sem agua. Havia apenas um objeto estranho um pouco acima da estranha `bacia’.

Curiosa, Seire mexe naquilo. Uma peça móvel girava. E como por mágica, agua começa a cair dentro da bacia. Nunca tinha visto algo assim antes.

Ainda estranhando aquilo, ela lava o sangue em seus braços. Não havia mais ferimento algum… Já tinha visto isso acontecer várias vezes depois de `ter se tornado’ um monstro, mas não deixava de se admirar.

Terminando de se lavar, A loba ouve uma batida na porta. De prontidão ela segue para abri-la.

Do outro lado, a atendente de antes. Tinha uma enorme bandeja cheia de pães, xícaras e um bule fumegando com alguma bebida totalmente desconhecida a Seire.

Ela também percebe os músculos tensos da atendente relaxarem. A garota realmente tinha tanto medo assim de Raffléia?

— Obrigada. — murmura a jovem clériga, esquecendo-se de que não seria entendida.

Seire pega a bandeja das mãos da jovem, que sai praticamente correndo. Aquilo a incomodava muito, mas não havia nada que pudesse fazer. Então, tranca a porta e leva a comida até uma mesa.

Ela pega um pão e começa a mordiscá-lo. E, sem dar atenção aos arredores, arria em uma cadeira. O pão estava quentinho, saboroso.

Afinal. Onde mesmo ela tinha se metido? Era incrível como sua vida mudou tanto em tão pouco tempo. Há pouco mais de um mês, ela estaria tranquila em seu quarto, estudando. Saberia exatamente que dia e hora eram. E suas preocupações se resumiriam a não desagradar os alto-clérigos de Néphise.

Néphise! Oh Deusa! Antes eu rezava para ti todo dia ao acordar e toda noite ao dormir. Por favor, perdoe-me!

Até a maneira como agia para com a Deusa mudou… O perigo constante. A morte rondando sua nuca… Fazia com que orações diárias fossem esquecidas. O importante era comer, dormir e continuar viva…

Seire se entristece. Sua crença continuava forte como nunca. No entanto, se sentia muito mal ao negligenciar suas orações daquela forma.

Estava num lugar relativamente seguro, descansada e alimentada, não? Não era tarde demais para uma pequena prece… O pão já tinha-se ido.

Logo o cheiro de comida acorda os demais. Primeiro Hafix. Ainda dormindo, ele se levanta e pega um pãozinho. Foi o que menos sofreu com a caminhada enlouquecida. Mas também era o que se sentia mais exausto.

Nunca fora do tipo que fazia muitos exercícios. Até antes de ser preso por “blasfêmia”, o maior esforço físico que fez foi a ida semanal até o mercado.

Um estudioso que vivia com a cara enterrada nos livros… Tendo que correr, fugir, para salvar a própria pele. Acompanhado do que ele sempre considerou como monstros. Pois os seus queriam vê-lo mofar numa sela fria. E lá morrer de frio e de doença…

Em seguida vem Arth. Acostumado como aquele tipo de vida, aquilo era conforto sem igual. Desde muito antes de conhecer Raffléia, ele já lutava, fugia e buscava. Às vezes se lembrava de como era um jovem alegre e despreocupado. Todos ainda vivos…

Ele cumprimenta Seire com um aceno com a cabeça e pega um pão. “Mais pão…”, suspira. Era tudo sua culpa… Aquela era a punição por seus pecados. Era pouco…

Raffléia silva baixinho ainda em sua cama:

— Pão… — soa, frustrada.

A bendita dieta dos elfos, que consistia basicamente em pão e frutas, deixava a sáuria ranzinza. Mas como ela poderia reclamar? Foi a vida que escolheu, não foi? Viajar pelo mundo. Conhecer pessoas e lugares. Tudo sob a bênção e iluminação de Regigreph.

Desde criança admirava o grande Gigas Diamante. Seus olhinhos verdes brilhavam ao vê-lo e ouvi-lo. Épicos sobre o mundo afora. Sempre se imagina num deles. Ela ri baixinho. Nos épicos não se falava de comida ou banho! A maior luta não era contra criaturas exóticas, lendárias ou mitológicas. Isto era fácil. Banho sim, era algo difícil de se conseguir!

Seire pega mais um pãozinho. Estava faminta. Observa a cena ao seu redor com o coração leve. Ela num quarto de estalagem, cercada por três estranhos, numa cidade esquecida pela Deusa. Em paz.

Por algum motivo inexplicável, aquilo tudo era gratificante.

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