Capítulo 7 – A Cidade Impossível (Parte 1)


O que fariam agora? Aquele lugar já era estranho por ter humanos e elfos vivendo juntos. E eles sequer falavam o idioma comum?! Em que fim de mundo eles tinham ido parar?

Não sabiam como agir. Raffléia conhecia um bom punhado de idiomas, mas não entendia uma palavra sequer do que a garota falava. O mesmo acontecia com Hafix, embora ele achasse que já tinha ouvido algo parecido antes.

Enquanto isso, a atendente falava e falava, nitidamente nervosa e desconfiada.

Seire sente um cutucão as suas costas:

— Com licença — fala um estranho num idioma comum difícil de entender — Viajantes? De fora? Precisar de ajuda?

Era um sujeito estranho. De pele escura e cabelo enrolado, tinha orelhas élficas, só que sem o rosto anguloso e porte físico de um. Vestia roupas de boa qualidade: uma camisa de algodão trabalhada, uma calça larga e botas do melhor couro. No cinto, uma espada longa com bainha ornamentada. Apesar da fala entravada e tacanha, apresentava-se como alguém importante ou de posses.

— Sim! — exclama a sáuria, sem pestanejar.

— Precisamos saber onde estamos. De um quarto. E, se possível, um mapa. — completa Hafix.

Arth encarava o estranho com aberta desconfiança. Já Seire não sentia nenhuma má intenção. Deixaria o problema para os mais tagarelas resolverem.

— Oh! Isso ser fácil resolver! — responde o elfo. — Meu nome ser Galiel Arin. Aqui ser Balmar, mas nós não estar em mapa. Não na maioria deles.

Terminando de falar, o estranho elfo se dirige à atendente da estalagem. Vai falando, desenvolto, no estranho idioma do lugar. Logo a garota se acalma e entrega uma grande chave para Raffléia, ainda um pouco receosa.

— Quarto arrumado. Eles ficar no primeiro andar. Refeições grátis toda manhã. Não se preocupar, eu pagar para vocês.

Os quatro ficam nitidamente agradecidos com a gentileza. Raffléia e Arth estavam tão acostumados com o medo e a hostilidade que aquele gesto parecia um verdadeiro milagre. Seire e Hafix sentiam algo parecido, mas em menor intensidade. Um elfo ajudando humanos? Lobos? Sáurios? Centauro? Qualquer não elfo… Era incomum.

Enquanto isso, Galiel sorri, com sensação de dever cumprido. Ou quase. Ainda faltava o mapa, não é verdade? Se aqueles quatro eram realmente viajantes perdidos, como pareciam ser, qualquer mapa não serviria. Tinha vários em sua casa, mas era melhor deixá-los descansar.

— Bem, — começa o elfo — eu ter mapas em casa. Mas melhor vocês descansar. Eu ter negócios. Depois voltar aqui e levar vocês para minha casa. — conclui, curvando levemente o corpo em sinal de despedida. Odiava ter tão pouco conhecimento do tal idioma comum. Sabia que soava engraçado. Só que era uma língua tão difícil.

— Sim, sim. Eu agradeço por todos aqui. Seu socorro foi de grande valia. — responde a sáuria.

O estranho Galiel então volta a sentar em uma das mesas, onde havia outras pessoas, e começa a conversar acaloradamente no desconhecido idioma.

— Bem… — murmura Seire — é bom ter uma cama para dormir, não?

Os outros acenam, concordando, enquanto seguem a atendente até o quarto. E ao chegarem à porta, a garota a penas entrega a chave para a loba e sai correndo, apressada. Ainda tinha medo.

Seire olha para Raffléia, que apenas dá de ombros. Já estava acostumada com aquela reação. A jovem clériga sente-se um pouco triste. A sáuria era uma pessoa boa demais para receber aquele tipo de tratamento…

Por fim, a garota-lobo abre a porta. Até ela estava exausta demais para pensar muito na situação. Os quatro entram no aposento, ao mesmo tempo aliviados e cansados. Caem exaustos nas camas. Mas Seire toma o cuidado de trancar a porta antes. Afinal esse era o propósito da chave, não é verdade?

Os quatro dormem como pedras. A estranha cidade tinha um efeito calmante. Não se sabia dizer se era algo especial ali ou apenas suas mentes relaxando, empurrando o ataque que sofreram para bem fundo no subconsciente.

Seire acaba não conseguindo descansar de verdade. Suas cicatrizes oriundas ainda do ataque ao monastério lancinavam. Era como se estivesse de volta ao dia maldito.

Cães negros a acossavam por todos os lados, mordendo-lhe braços, pernas e pescoço. Enquanto horrendas raízes em forma de garras arrancavam sua pele…

Um calor insuportável. A risada de uma hiena. Não… Era o demônio de fogo, divertindo-se ao observar a loba ser dilacerada.

Seire acorda. Ofegante. Suava frio. Estava em pânico! O corpo doía de verdade. A risada horrenda não saia de sua cabeça.

Ela se abraça, tentando aplacar o nervosismo. As mãos apertando forte. As unhas entrando na carne.

Sente seu corpo tentando se transformar. As unhas virando garras. E doendo ainda mais. Sabia que nada de bom viria se ela se tornasse um monstro naquele estado.

Seire aperta os dentes, segurando um grunhido de dor e fúria. Tenta com todas as suas forças deter a transformação. Respira ofegante. Seu instinto dizendo que tudo aquilo não era nem um pouco normal.

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