Capítulo 6 – Voltando para Casa (Parte 1)


Ao terminar de contar o relato do massacre em Rammphel e de como `sobreviveu’ àquilo tudo, Rassufel se sentia exausto. Suava frio. Mas não era tão ruim quanto os pesadelos. Não falou nada sobre o que viu de Gaheris.

O sáurio parecia muito triste ao ouvir tudo aquilo. De súbito ele aperta as mãos do cadete entre as suas próprias:

— Eu… peço desculpas. — murmura baixinho.

Rassufel conseguia sentir uma grande ternura naquele gesto. E remorso. As mãos ásperas e quentes do sáurio causavam uma sensação estranha… “Mas por que ele acha que foi tudo culpa dele?”

— Não há porque se desculpar. — responde o jovem, estranhamente emocionado. Nem seu pai demonstrou aquele cuidado para com ele… — Você não teve nada a ver com isso…

O sáurio apenas balança negativamente a cabeça. Rassufel não sabia como interpretar aquilo.

— Vou ajudá-lo no que puder! — fala, se levantando e sumindo de vista.

Rassufel enche sua xícara com mais chá. Não conseguia acreditar no que estava lhe acontecendo. Era uma mistura tão grande de sensações que o deixava tonto. Medo, raiva, alegria, alivio…

Finalmente podendo voltar para casa. Isto é, se o sáurio estivesse realmente falando a verdade. Ele achava que sim. Se fosse para prendê-lo ou matá-lo, não precisava de tantos rodeios.

Sentia-se como se tivesse sido testado. O que teria acontecido se tivesse decidido reagir, atacar, quando ficou zangado? Sentia que não seria agradável…

Apesar do ar cordial e solícito, o cadete continuava sempre um pouco tenso. Por algum motivo ele sentia com aqueles dois o mesmo que sentiu quando viu Yassa: um medo paralisante. Só que sem o banho de sangue. E os pesadelos…

Alexsander permanece o tempo todo calado, se empanturrando de pãezinhos.

Em poucos minutos, o sáurio volta.

— Bem, eu não faço a menor ideia de onde você mora. E creio que não vá me contar, não é verdade? — começa o velho sáurio. Rassufel não sabia como responder — Neste caso, — continua sem esperar qualquer resposta do cadete — vou providenciar suprimentos para uma semana e dinheiro para um mês de viagem. Deve ser mais que o suficiente.

“Não é só mais que o suficiente. É demais””, pensa Rassufel. No entanto, não nega a gentileza.

— Também vou arranjar alguém para levá-lo até a entrada do Reino mais próxima. Precisa de mais alguma coisa?

O jovem não queria abusar da gentileza daquele senhor. Ou da de Alexsander, que o levou até ali. Mas sua boca foi mais rápida:

— E montaria? — pergunta, imediatamente se arrependendo.

O sáurio começa a gargalhar. O rapaz era bem direto!

— Infelizmente não vai ser possível. Nossos animais não se dão muito bem com humanos.

— Posso vê-los? — exclama, com olhos brilhando. Adorava animais e não perderia a oportunidade de conhecer criaturinhas novas por nada neste mundo!

Alexsander, que estava ainda em silêncio, se engasga com um pãozinho.

— Não sei se seria seguro, mas se quer tanto, posso ver o que dá para ser feito.

Rassufel fica muito feliz em ouvir aquilo. Tanto que não percebeu a chegada de um outro sáurio. Parecia muito com o que estava na entrada da cidade.

— Oh, você chegou, Vatra? — fala o ancião sáurio — Preciso que me faça um grande favor.

— Sou toda ouvidos — responde Vatra.

“Uma mulher?”, pergunta-se o cadete. Pelo menos tinha voz feminina.

— Gostaria que levasse este rapaz — explica, apontando para Rassufel — em segurança até a estrada do Reino do Norte.

— Sim, senhor. — responde, com cara de quem não estava nem um pouco feliz com a tarefa.

— Só que antes, ele quer ver nossas montarias. É o tempo que vão levar para preparar os suprimentos para a viagem.

— Ha! Vai levar umas boas mordidas. — comenta Vatra, sorrindo.

“Vejamos se vou ou não levar mordidas!”

Alexsander e o senhor sáurio se levantam e começam a caminhar até a saída. Rassufel para rapidamente para pensar: não tinham lhe apresentado o senhor sáurio. Não sabia seu nome. Suspeito…

O jovem cadete apenas acompanha os dois, afinal de contas, não ficaria para trás. Vatra também os acompanha.

Após cerca de quinze minutos de caminhada, eles chegam ao que parece ser um estábulo. Ao entrarem, são recepcionados por vários animais de grande porte: répteis, de dentes afiados, calda alongada, do tamanho de cavalos. Havia um sáurio cuidando deles.

Rassufel fica encantado. Nunca tinha visto animais assim antes. Sem pensar duas vezes, ele se aproxima de um deles. Esguio e agitado, parecia ter bastante energia.

O sáurio que cuidava dos animais faz menção de impedir o jovem humano, mas é parado por um gesto do ancião. Vatra não esboça reação: queria ver o garoto aprendendo do jeito difícil.

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