Capítulo 6 – Rumo ao Desconhecido (Parte 1)


Os dias passaram se arrastando. Não havia nada a se fazer dentro daquela caverna. As noites eram sempre cheias de sangue e horror. “Pelo menos ainda tenho minha armadura e minhas espadas”, pensa Rassufel.

Na verdade, ambas eram do exército. Também o era seu cavalo morto… O que era seu de verdade estava à salvo em Kaiga, na sua casa.

Todo dia ele acordava com pão e água para comer. O almoço era uma sopa rala de batatas. Jantar não tinha. Considerando a situação em que estavam, era muito.

Para matar o tédio, o cadete treinava com as espadas. Uma das poucas coisa em que era bom. E que não usava por conta de sua covardia…

Era um estorvo. Até que conseguia se defender bem. Mas atacar… Sempre travava, nervoso. Pensava em montes de coisas. E se… o oponente contra-atacasse? E se… o oponente defendesse e sua espada quebrasse? E se… ele conseguisse matar o oponente?…

A ideia de matar lhe dava calafrios. Teria de fazer um dia ou outro. Se não ele era quem iria morrer.

Então, depois de passada uma semana, Alexsander o surpreende durante seu treino. Não demonstra o menor interesse pelas habilidades de Rassufel:

— Arrume-se logo! Estamos partindo! — fala rispidamente — Não temos tempo a perder! — e sai disparado.

O jovem e medroso cadete não tinha muito o que `arrumar’, mas pelo tom de preocupação decide vestir sua armadura. Não iria demorar: era apenas uma cota de malha para o tronco e o restante era couro. Os Kaigas não usavam armadura pesada. “`Não vale a pena”, seu pai dizia.

— Vamos! — volta subitamente Alexsander, enquanto Rassufel calçava suas botas.

O rapaz parte atrapalhado, seguindo Alexsander com dificuldade. “Como diabos uma pessoa da idade dele tem tanta disposição?”.

Em pouco tempo os dois chegam à entrada da caverna, onde Tifo já aguardava, apreensivo. Agora Rassufel sabia onde estavam: na divisa da Floresta Negra com as Montanhas Beor.

Era manhã cedo e a claridade do sol atinge em cheio os olhos do cadete, o ofuscando. Alexsander parecia indiferente.

Por fim, não teve tempo de se recuperar. Alexsander e Tifo começaram imediatamente a caminhada, num passo bastante apressado, seguindo pela encosta das montanhas. Rassufel acompanhava, ainda meio cego, tropeçando em pedras e troncos.

Eles iriam caminhar por quanto tempo daquele jeito? Morreriam de exaustão antes do dia terminar! Já estava arrependido de ter concordado com seguir aqueles dois malucos!

E assim os três seguem por horas. O sol às suas costas e a montanha às suas direitas. O tempo estava quente e logo Rassufel começa a suar.

Ele se sente um inútil ao ver aqueles dois senhores com mais resistência que ele. O que diabos estava acontecendo? Aquela caminhada era pior do que qualquer uma que fez na Academia. Já estava a ponto de parar ali mesmo e deixar os dois seguindo quando ouve Tifo dizer:

— É melhor pararmos para descansar, senhor.

Rassufel não espera a resposta de Alexsander: desaba ali mesmo, no chão. O reitor da Academia de Valphala apenas suspira e aceita. Aquela parada não estava em seus planos, mas também não queria matar o garoto.

— Diabos! Como vocês conseguem andar assim? — pergunta Rassufel esbaforido.

Alexsander ri enquanto Tifo apenas dá de ombros:

— Quando se é um fugitivo, você acaba se acostumando. — responde Alexsander. Não podia contar toda a verdade, então essa desculpa teria de servir.

O cadete balança a cabeça, incrédulo. Aquela resistência toda não parecia muito natural. No fim, prefere ficar calado: não parecia que havia algum perigo iminente…

Alexsander e Tifo já não concordavam muito com essa de `ausência de perigo’. Enquanto um ria mas olhava para os lados de instante em instante, o outro não disfarçava a inquietação e o nervosismo.

Rassufel bebe um bom gole de água e deita no chão coberto de folhas secas. “Está quente…” Ele respira bem fundo, para absorver o aroma da floresta: o acalmava. Pela primeira vez em dias ele fecha os olhos e não é atacado por pesadelos sangrentos.

Sonha com sua casa. O cheiro da madeira. O chá preto que sua mãe sempre preparava. O orvalho na relva nos campos afora. O suor dos cavalos correndo.

É acordado por um cutucão forte no ombro:

— Precisamos ir. — fala Tifo para o ainda sonolento Rassufel.

O jovem suspira. Suas pernas ainda doíam. Pelo menos se sentia descansado. Era a primeira vez naquela semana que dormia de verdade.

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