Capítulo 6 – Acordando de um pesadelo (Parte 2 – Final)


Já fazia um tempo que Alexsander e Tifo tinham deixado Rassufel a sós. Não seguiu o conselho. Não conseguia dormir. Mal fechava os olhos e tudo já ficava vermelho e seu estômago embrulhava. Os olhos ardiam e a barriga roncava. O pão, abandonado num prato…

Estava tão irritado, frustrado e aterrorizado que não fez pergunta alguma. E ainda por cima tinha um monte delas.

Há quanto tempo ele estava desmaiado? O que eles faziam ali? O que diabos eles queriam dizer com `quimera’? Como Alexsander sabia que ele estava tendo pesadelos? Onde estavam?…

Será que ele podia pedir a ajuda dos dois para chegar em casa? O que seria da vida dele agora?

Rassufel começa a chorar, desesperado. A Academia Militar não o tinha preparado para… aquela monstruosidade. Todos morreram de forma tão… fácil. E horrenda! Por que diabos General Gaheris enviou todos sabendo que Yassa na verdade era aquele demônio?

Ele pretendia sacrificar a todos, não é verdade? Até porque… Ele mesmo era outro… Isso se não tinha sonhado com tudo aquilo e o General na verdade está tão morto quanto os outros…

Precisava voltar para casa. Ou para a capital. Urgente. Saber se alguém tinha noticias…

De tão cansado, adormece. Cercado de sangue e corpos se retorcendo. Se continuar desse jeito, sua sanidade ruirá.

Acorda exausto, suado e faminto. Pelo menos o estômago não embrulhava mais. Come todos os pãezinhos que tinha com voracidade. E toma um susto ao ver Alexsander sentado numa cadeira, absorto com um livro.

— Está mais calmo agora? — pergunta Alexsander, com calma. Lentamente fecha seu livro e o coloca no colo.

Rassufel suspira, balançando a cabeça:

— Não… Nunca fui muito calmo. E… nunca mais serei.

Alexsander nada diz. Sabia que seria melhor o rapaz decidir falar qualquer coisa por sim mesmo.

— Duvido você saber o que aconteceu… — murmura Rassufel, mais para si que qualquer outra coisa — Quando entrei para a Academia eu tinha noção de que batalhas podiam ser horríveis…

Alexsander ri baixinho. Sabia exatamente o que aconteceu. Afinal, parte da culpa de tudo aquilo era dele… Também não sentia remorso. Era um dos exércitos de Gaheris, que o obedeciam sem pestanejar e faziam as piores atrocidades por puro prazer. Por algum motivo o garoto a sua frente não foi afetado pela lavagem cerebral.

— …Mas aquilo… — continua o cadete, com a mão no rosto — Aquilo… era um demônio! Ele dilacerou todos… E nem para ter a decência de dar-lhes uma morte limpa… Os deixou sofrendo… Para morrer de hemorragia.

Era intrigante, pensava Alexsander. O rapaz realmente fazia parte do exército de Gaheris, no entanto mantinha toda a sua humanidade. Tinha alguma coisa especial, só não conseguia discernir o que. Seria bom levá-lo a Diamante. Aquele velho maldito sabe de tudo. Capaz de saber o quão especial aquele jovem era.

— Você sabe o que era aquele… aqueles demônios não é? — pergunta subitamente Rassufel, encarando Alexsander com um olhar penetrante.

Este trava, nervoso. Era um olhar que parecia capaz de ver tudo. Mas foi só um susto. O jovem baixa a cabeça, sem saber exatamente o porquê de ter feito aquela insinuação.

— Bem… Na verdade eu sei sim… — suspira Alexsander.  O garoto merecia saber pelo menos isso. — Tanto Gaheris quanto Yassa são o que se pode chamar de quimeras. Monstros mitológicos feitos da junção de vários animais.

Rassufel pisca, desnorteado. Nunca tinha ouvido falar naquilo. Se bem que nunca tivera interesse em mitologias e superstições.

— …São muito, mas muito forte do que aparentam. — continua Alexsander — O melhor a fazer é ficar bem longe.

Disso o jovem cadete já sabia. Nem passava pela sua cabeça querer encontrar cm aquelas coisas novamente. Apenas acena com a cabeça, concordando.

O que queria mesmo era voltar para casa. Dizer que estava vivo. Talvez… E só talvez encontrar alguém que acreditasse nele.

— Quando poderei sair daqui? — pergunta, murmurando.

— Oh. Bem. Sair… você pode quando quiser. Não estou prendendo você aqui. Só que Gaheris ainda pode estar lá fora. Não seria uma atitude sensata andar por aí numa floresta sozinho com uma besta como ele rondando.

— Se quiser — continua — pode vir comigo e Tifo por um tempo. O caminho que vamos pegar não é perigoso e quem sabe eu consiga algum transporte para você até a cidade que desejar.

Parecia uma proposta muito boa. Boa até demais… No entanto não sentia nada de ruim ou qualquer intenção má vindo de Alexsander. E nenhum sinal de mentira.

Não tinha muitas opções, não é verdade? Rassufel suspira.

— Aceito a proposta. — responde, sem saber onde isso iria levá-lo.

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