Capítulo 6 – Acordando de um pesadelo (Parte 1)



Nota da autora:

É aconselhável ler os textos Prólogo – O Covarde (Parte 1) e Prólogo – O Covarde (Parte 2 – Final) antes de continuar lendo o capítulo seis.


Sangue. Para onde olhava, só o que via era sangue. Ao longe ouvia os gritos agonizantes dos moribundos. O odor forte de ferrugem o nauseava. Um mar de sangue o cobria até os joelhos. Fresco. Sente o sabor metálico em sua boca. Ouve uma gargalhada doentia. Ouve o relinchar sofrido de seu cavalo. Uma dor intensa, como mil agulhas perfurando a pele, atinge seu pescoço. Era o demônio.

Rassufel acorda de súbito. Estava suado e seu estômago embrulhava. Um pesadelo? Ou uma lembrança… Estavam todos mortos! Seus amigos da Academia Militar. Os veteranos do exército… Não General Gaheris…

Eram dois monstros brigando entre si e brincando com frágeis mortais. O líder do Reino era um monstro! Ou o que viu foram apenas delírios em seu ataque de pânico e insanidade? Algo o dizia que era tudo verdade…

Só então percebe que não estava mais na maldita floresta. Estava deitado numa cama macia. Ali parecia ser uma espécie de caverna. Tochas iluminavam o ambiente. Um prato cheio de pãezinhos e uma jarra cheia de água cristalina o recepcionavam.

Sem pensar duas vezes, Rassufel devora quatro dos pães e sorve toda a jarra. Estava faminto e com sede!

Saciado e se sentindo melhor, o jovem cadete para para pensar. Alguém o tinha resgatado daquele pesadelo. Lembra-se vagamente de uma pessoa o derrubando em sua corrida desenfreada. E a palavra Quimera.

Aparentemente era uma boa pessoa. Levou ele para um abrigo, deixou-lhe comida. E arrumou-lhe roupas novas… Sua armadura estava encostada num dos cantos da parede: parecia limpa. Também vestia roupas limpas. A ideia de que alguém tirou sua roupa e deu banho o deixa meio nervoso. E envergonhado.

“Melhor que morrer de pneumonia… Ou…” A memória do horrendo dia volta com força total. E agora que estava com a mente mais calma, podia sentir tudo com maior horror.

O que faria? Teria que falar com as famílias de Gajeel e Navir… E voltar para casa. Será que alguém já sabe do que aconteceu ali na Floresta Negra? Duvidava…

Rassufel ouve passos se aproximando. Duas pessoas. Não tinham pressa. Logo elas chegam à entrada do quarto, se é que aquilo era um quarto. Eram dois homens, de certa idade. Deviam ter uns trinta a quarenta anos. Vestiam-se como camponeses, embora pudesse notar que o tecido era de ótima qualidade. Nenhum deles parecia força suficiente para derrubá-lo. Ou carregá-lo…

— Bom dia, jovem. — fala o que parecia mais velho — Espero que tenha descansado. Porque é certeza que não dormiu bem…

Rassufel apenas acena com a cabeça. O que aquele senhor sabia? Não pareciam hostis ou perigosos, mas seu instinto dizia-lhe para tomar cuidado com o que falava.

— Meu nome é Alexsander B. Holder. E este — aponta para a outra pessoa — é meu servo, Tifo. Já deve ter ouvido falar de mim. — comenta, abrindo um largo sorriso.

E quem não tinha?! Reitor da Academia Mecânica de Valphala. Traidor do Reino. Fugitivo há dez anos! Então não era mesmo uma pessoa comum…

— Sou Rassufel… — não falaria seu sobrenome, não queria que ele soubesse que vinha de família nobre. Muito menos contaria o que aconteceu. Não parecia boa ideia revelar qualquer coisa a um traidor, mesmo que fosse também seu salvador…

Alexsander começa a gargalhar. O cadete apenas o encara, confuso.

— Rapaz esperto. — comenta, entre risos — Espero que tenha gostado da refeição. É pouco, mas foi tudo o que deu para conseguir neste fim de mundo.

“Estava ótimo”, pensa Rassufel. Queria saber onde estava. Provavelmente em algum lugar bem perto da floresta, ou ainda nela… Estremece.

— Bem, — continua Alexsander — meu plano era ter partido há uns dias, mas com Gaheris farejando por aí…

A vista de Rassufel fica rubra ao ouvir o nome maldito. Um odor sanguíneo atinge suas narinas.. O quarto, Alexsander, Tifo, tudo desaparece. Sangue. Sangue por todos os lados. Um corpo dilacerado à sua frente. Gritava. Rosnava. Chacoalham seu ombro:

— Melhor não pensar em coisas ruins, meu caro Rassufel. — suspira Alexsander — Precisa descansar mais. Dormir.

Rassufel tinha contraído os dedos. Os punhos serrados. As unhas machucando a palma de suas mãos. “Dormir?! Quer que eu enlouqueça de vez?!”

— Eu já dormi demais… — responde o cadete, por entre os dentes. Não queria dormir. Só traria ainda mais pesadelos.

Alexsander balança negativamente a cabeça, suspirando. O garoto tinha passado por muita coisa em muito pouco tempo. Era um milagre ele estar vivo. Era outro sua sanidade estar intacta.

Lembra-se de como foi seu primeiro `encontro’ com Yassa… Fugiu. Correu tanto… Tanto… Na verdade nunca parou de fugir. Passou um bom tempo sem dormir por conta dos pesadelos…

— Me desculpe… — murmura — Não deve ter sido nada bom presenciar aquilo tudo. E pensar que foram duas, e não apenas uma Quimera. No mesmo dia… Quanto azar, meu jovem. Mesmo assim precisa dormir. Um dia os pesadelos acabam. — não era verdade, mas o rapaz não podia ficar sem dormir.

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