Capítulo 5 – A Reconstrução de Hochberg (Parte 2)


O sáurio fica carrancudo, sério. Chegou a hora de dizer tudo o que aconteceu. Não seria nem um pouco fácil.

— E os garotos? — pergunta Hamur.

— Eu quero que eles saibam de tudo. Mostrar que o mundo não é tão preto e branco assim. E também para ensiná-los que os atos deles têm consequências. — finaliza, encarando os Helten.

— Que assim seja. — respira fundo — É uma história bem longa e não tenho o menor prazer de contá-la.

— Creio que podemos começar pelo saque. Bem… Eu tenho um filho, já adulto. Bem mirrado mas com um bom juízo. Quero que ele me suceda como líder. E… Bem… Pra isso ele precisa liderar alguma coisa, não é verdade?

Balthasar acena com a cabeça, pedindo para que o sáurio prosseguisse. Os três irmãos só escutam, sem esboçar reação.

— Pois bem! Estamos com alguns problemas. Assim decidir colocar o garoto para liderar um grupo de saque. E eu decidi que esta seria a melhor opção. — Balthasar franze o cenho, mas nada fala.

— Sei que está irritado com isso. E com razão! Era pra ser algo simples. Eles chegariam, pegariam parte da caça e iriam embora… Como você sabe, não foi assim que aconteceu.

— E você saberia me dizem o que aconteceu? — pergunta Balthasar, num tom ríspido, enquanto encarava os Helten.

— Sim… O grupo desobedeceu ordens. E o caos se seguiu. Acabamos queimando sua vila… E eu venho aqui para pedir desculpas. A primeira do dia… — suspira.

“E quanto aos que defendiam Hochberg?”, pergunta-se o ferreiro.

— Ah… Por Regigreph! Por que as coisas não podiam ser mais simples?! Pois bem. Acho que já sabe, mas meu garoto acabou por decidir levar seus defensores prisioneiros. Não sei se foi uma boa decisão, mas não era de todo ruim. Conheci seu filho por sinal! Até que tem coragem, o garoto.

— E agora chegamos na parte em que eu devolveria os prisioneiros e pediria ainda mais desculpas e fizesse uma retratação… — fala, engolindo seco.

Balthasar não gosta de como soava aquilo tudo. Alguma coisa muito ruim tinha acontecido. Os irmãos sentiam a mesma coisa. E começavam a se arrepender amargamente de terem sido covardes e fugido.

— Só que as coisas nunca são tão simples… — suspira, com semblante sofrido — Nós decidimos levá-los para um lugar mais seguro enquanto eu não resolvia este problema. Mandei meu filho, um pequeno grupo de sáurios para escolta e os prisioneiros para Flussevir.

— Ufa! Achei que fosse me dar uma notícia ruim! — suspira aliviado Balthasar. Hamur continua sério.

— Deixe-me terminar… — murmura o sáurio — O comboio foi atacado no meio do caminho… — respira fundo — pelo exército de Gaheris.

O sáurio dá um tempo para que o humano a sua frente absorvesse a informação. O princípio de sorriso no rosto do velho ferreiro morre na hora.

Balthasar sabia da fama do famigerado exército de Gaheris. Os três assustados jovens na sala não entendiam direito o que aquilo tudo queria dizer, mas observando o semblante dos dois adultos, podiam muito bem deduzir que as notícias eram as piores possíveis…

— Então… Todos morreram… — murmura Balthasar.

— Sim e não. Nossos filhos milagrosamente sobreviveram. Embora isto não signifique muita coisa. Parece que o jovem Meltse jurou vingança. E meu desmiolado Lamark vai junto! — Hamur bate na mesa, frustrado.

“Filho teimoso maldito! Por que diabos ele tinha logo que jurar vingança contra Gaheris?! Era melhor, e mais indolor, se jogar de um precipício! O que esse garoto tem na cabeça?!!!”

Os dois, humano e sáurio, entendiam muito bem a raiva um do outro. Enquanto isso os três Helten estavam amuados num canto, em choque. Estavam todos mortos! Ou quase todos… Não sabiam se ficavam tristes ou felizes por sua covardia…

— E é isso… — murmura por fim o sáurio — Nada que eu fale ou faça pode pagar por tudo isso. Você tem todo o direito de me odiar para sempre. Faça o que quiser. Meu machado é seu. — fala, solene, colocando o grande e pesado machado na mesa, entregando-o a Balthasar — Se quiser me matar, pode usá-lo.

Era o que tinha a dizer. Depois que soube de tudo o que aconteceu, Hamur sabia que simples desculpas não seriam o suficiente. Sua vida também não… Mas se aplacasse a ira de seu amigo, morreria feliz.

Balthasar encara o machado à sua frente e suspira. Às vezes se esquecia que sáurios eram extremos em alguns pontos. Não estava zangado, muito menos odiava seu amigo sáurio. Só estava frustrado… O mal já estava feito. A espada já quebrou. Só restava aceitar. Ele tira o machado da mesa e o coloca ao lado de si.

— Aceito o machado com honra e gratidão — responde o ferreiro — Não tenho ira para aplacar. Prefiro tê-lo vivo e receber sua retratação.

O sáurio suspira, toda a tensão esvaindo de seu corpo. O `problema’ estava `resolvido’…

— Sendo assim, meu caro amigo. Eu ofereço muitos braços e muita pedra a Hochberg. Trouxe os melhores construtores que tenho. Que Hochberg nunca mais caia por conta das chamas! Também devo ter algum material para sua ferraria…

Era muito mais do que Balthasar esperava! Só que aquela pequena felicidade tinha um gosto muito amargo. Martha, Marco, Zepelli… Rachel, Colodi e Ralph… Destes nenhum voltaria. E só o milagre dos milagres traria seu filho de volta com vida.

Encara o sáurio com um misto de alegria e tristeza. Se era duro para ele, imagine para Hamur que se sentia diretamente responsável por tudo?

— Bem… — fala mais uma vez o sáurio — Vou me dar a liberdade de lhe pedir duas coisas… Eu quero que me faça três arcos especiais com chifres de armelos. Tenho material. E… também gostaria de levar os três garotos comigo. — sorri, por fim.

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