Capítulo 5 – A Jornada? (Parte 2)


— Quê?! — levanta Lamark de súbito, batendo as duas mãos com força na mesa. Algumas canecas caem.

Os outros líderes, menos Vatra, fazem uma careta de raiva e desgosto. Alexsander tentava segurar o riso com toda a força. Meltse estava confuso. Eles já iam partir? Diamante parecia se divertir muito com a situação.

— Ora, eu já não tinha dito que tinha planos? — fala o idoso, maroto.

Lamark se senta, suspirando. Os outros sáurios murmuravam, cochichavam. A notícia pegou todos de surpresa. Achavam que Lamark tinha voltado para assumir suas responsabilidades como líder de clã. Agora iria partir para talvez nunca mais voltar.

O sáurio não teve tempo de fazer qualquer pergunta à Diamante: assim que se senta, Vatra se levanta, com calma. Iria falar alguma coisa… “Problemas”, pensa o ferreiro.

— Neste caso, — inicia, solene — eu, Vatra Trammfarr, aproveito a oportunidade para anunciar que… o clã Trammfarr aceita Lamark Grischarr como líder do clã Grischarr. Que ele seja um líder nobre e sábio. E guie os nosso guerreiros à vitória!

Os outros líderes a encaram, incrédulos. Na verdade todos estavam surpresos. Vatra era a maior opositora à liderança de Lamark! O que tinha acontecido? Não era para ela estar ainda mais irritada com ele? Afinal… Henkel era seu irmão.

Enquanto isso, Diamante tinha um sorriso bobo estampado no rosto. Ele sabia de tudo.

Vatra ouvira todo o relato de Lamark no outro dia. Não era sua intenção… Queria falar com Diamante quando ele chegou. Agiu com compostura e calma que um líder deve ter. Outros teriam se desesperado e morrido, fazendo com que a morte dos companheiros de armas fosse em vão…

Nem falou mais com Diamante. Lamark podia ser o mais fraco de todos os sáurios, mas o simples ato de honrar o desejo final de seus companheiros e garantir que o clã continuasse com um líder era algo que ninguém teria feito na mesma situação.

Vatra conversou com seu pai, Schart, e com vários outros guardiões. E todos eles concordavam que Lamark era digno. Uma lágrima solitária escorre pelo olho direito da sáuria: seu irmão agora era o maior de todos os heróis sáurios.

E Lamark? Este piscava, confuso. Não saiba se estava acordado ou sonhando… Tinha sido  horrível com Vatra e ela o reconhecia como líder?! Agora era a sua vez de responder:

— Eu, Lamark Grischarr, — fala, levantando-se — agradeço o reconhecimento e prometo fazer de tudo para cumprir as expectativas do clã Trammfarr. — Agora tinha feito tantas promessas que sequer sabia se era possível cumpri-las numa única vida.

Ao terminar, senta-se novamente. Como por impulso, ele retira de sua bolsa um frasco de vidro trabalhado.

— Bem… — murmura, olhando para Vatra — Por favor aceite isto como pedido de desculpas. Fui muito rude…

A sáuria rapidamente pega o frasco e o guarda. Não falaria mais nada naquele dia. Diamante sorria que nem menino bobo. Os outros líderes murmuravam, visivelmente irritados.

— Mas… — começa Hara, líder dos xamãs.

— Por favor, hoje não. — interrompe Diamante, gesticulando pedindo paz.

Meltse observava tudo sem entender direito. Não era Vatra inimiga de Lamark? Parecia que a relação entre os dois era mais complicada… E por que diabos todos obedeciam cegamente a Diamante? A cada minuto o ferreiro desconfiava mais e mais daquele ancião…

— Que comecem as festividades! — grita Diamante, batendo sua caneca na mesa.

E com aquilo, qualquer tensão e hostilidade que pairava no ar se dissipa. Todos bebem e comem alegremente.

Meltse sente uma estranha inspiração em seu corpo. Vê-se sorrindo. Era tudo vagamente bizarro, mas não estava com a menor vontade de esquentar a cabeça com tudo. Iria beber e se divertir como todo mundo. Talvez fosse sua última festa.

Enquanto o ferreiro pensava, Diamante saca um alaúde sabe-se lá de onde e começa a tocar e cantar. Uma música alegre e festiva. Meltse não entendia a letra, soava sáurio.

Bebe outra caneca. Ouve os sáurios cantando animados, acompanhando Diamante. Sua caneca estava cheia novamente. Os líderes à sua frente já pareciam amistosos. Ou menos zangados. Não sabia dizer. E vira mais uma caneca. O gosto era bom…

Lamark só observava seu amigo humano. Balançava negativamente a cabeça. Meltse estava bêbado. Suspira enquanto bebericava sua caneca e comia um bom naco de carne. Era sensato o suficiente para beber só uma caneca ou duas.

“Ele se esqueceu que vamos partir logo logo?”, pergunta-se o sáurio, vendo o ferreiro virar mais uma caneca. “Alguém tem que estar sóbrio para ouvir o que Diamante tem a dizer sobre a tal maldita jornada”.

Meltse começa a cantarolar junto do ancião, visivelmente alterado. Assim como a maioria dos sáurios… “Vai ser um longo dia…”

Lamark olha ao redor a procura de Vatra. Ela não estava mais na mesa, tinha sumido… Queria perguntar a ela o porquê da mudança tão repentina sobre o que achava dele. Já que era provável que nunca mais a veria. Ele se levanta e vai procurar a líder Trammfarr na árvore da entrada de Flussevir. Era onde ela sempre ficava.

Não a encontra. Senta-se, apoiando as costas na árvore. “É estranho… Queria vê-la uma última vez antes de partir…”. Suspira.

Até mesmo dali conseguia ouvir a cantoria dos sáurios.

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