Capítulo 5 – O Banquete (Parte 3 – Final)


Meltse não sabia exatamente o que tinha acabado de acontecer, mas podia deduzir algumas coisas. Henkel devia ser o nome do sáurio que protegia Lamark. Aquele sáurio que acabou de sair deve ser o pai de Henkel. E ele não culpava Lamark pela morte do filho… Talvez. Seu semblante impassível tornava impossível saber se ele falou aquilo de coração ou se foi uma mera formalidade. Pela reação de Lamark, era a primeira opção. Agora o que Vatra tinha a ver com aquilo tudo?

O ferreiro não teve tempo de concluir o pensamento. Tinham chegado no seu destino: uma gigantesca praça, que ficava bem de frente à caverna-biblioteca de Diamante. Não lembrava de ter passado por ela quando chegaram no outro dia. Se bem que… Ainda estava em choque no dia.

Numa mesa grande, feita de pedra, destacada das demais, estava o senhor Diamante. Conversava com outro humano que o ferreiro não tinha visto ainda. Algo nele deixava Meltse apreensivo. Também nota que os outros sáurios ao redor pareciam tensos.

O intrigante humano vestia roupas militares, de cores preto e vermelho. Parecia demais com as vestes dos cavaleiros do exército de Gaheris. Meltse sente calafrios…

Já Lamark, ao ver o tal humano, dispara até a mesa e para de frente para Diamante, rosnando. E também tremendo feito vara verde.

— O que ele está fazendo aqui?! — exclama Lamark, enquanto apontava para o humano de roupas negras.

Tinha agido por impulso. Havia desafiado o grande Gigas Diamante, que o encarava naquele exato momento com olhar de poucos amigos. “Não foi uma ação sensata”.

Antes que alguém falasse mais alguma coisa, o humano em questão murmura algo a Diamante, se levanta e sai dali, entrando na biblioteca. Ao se levantar, ele encara o jovem sáurio. Com um sorriso macabro. De orelha a orelha. E dentes serrilhados…

“Não é humano”, pensa Meltse, com o estômago embrulhado. Teve de usar toda a força de vontade para se manter de pé e consciente. Aquele `sorriso’ passou uma aura ainda mais horrenda que a do exército de Gaheris.

Lamark continuava tremendo. E agora também suava frio. Mas mantinha o rosto sério e irritado, encarando Diamante. Este suspira, apertando as têmporas com os dedos.

— Ele está aqui porque precisa de refúgio — responde, por entre os dentes — E aqui é um lugar de refúgio… Ele tem mais direito de estar aqui do que vocês… Você sabe muito bem disto.

Lamark bufa. Ele sabia. Todos sabiam… Mas ouvir aquilo de forma tão seca e direta era demais para o jovem sáurio. Ele podia ser o grande e poderoso Gigas que fosse! estava errado, sabia disso. No entanto insistia no erro, defendendo um monstro como aquele…

O sáurio sai, pisando fundo e bufando de raiva. Meltse olha para os lados: estava sozinho. Os sáurios parecia assustados. Lamark se afastava. Diamante o encarava. E aquele que conversava com ele… Não tinha alucinado, não é? Tinha certeza que não…

Conseguia entender muito bem porque os sáurios estavam tão assustados, mas porque Diamante defendia aquele `humano’? Não fazia sentido. Meltse decide por seguir o amigo sáurio. Não queria ficar ali. Era sufocante…

— Aonde pensa que vai? — pergunta Diamante, interrompendo a saída de Meltse — Venha, sente-se ao meu lado. Você é convidado de honra. Lamark logo vai esfriar a cabeça. Ele volta — fala, tentando soar calmo, mas uma irritação destoava bem no fundo.

Meltse não teve coragem de recusar. Senta-se exatamente no mesmo lugar onde antes esteve aquela… criatura… Também queria fazer um monte de perguntas. Só que sentia não ser muito… seguro… tocar no assunto.

— Não… Não faça perguntas… — murmura Diamante, como se pudesse ler a mente do ferreiro — Mas você deve saber e eu tenho o dever de informar… Aquele que saiu a pouco e que deixou seu amigo sáurio `irritado’ é Yassa. Deve conhecê-lo de nome.

“Mas esse não era o nome do assassino da Dama Branca? Quem Gaheris está perseguindo?”, pensa Meltse.

— Sim… Ele mesmo… E qualquer história ou rumor que já tenha ouvido falar sobre ele… Provavelmente é verdade — Diamante rosna baixinho, deixando Meltse um pouco apreensivo — Lamark tem razão em dizer que eu não deveria protegê-lo… E um monstro… Mas Yassa não escolheu ser assim… Ninguém entende isso. — murmura, triste.

As últimas palavras de Diamante soaram tão melancólicas que Meltse pôde sentir como se fosse ele mesmo a sofrer. Era uma angustia tão forte… Não sabia o porquê, mas por alguns instantes ele sente uma tristeza muito maior que a da perda de seus amigos e vizinhos no ataque na estrada…

É tanto que ele ainda demorou um bom tempo para perceber que ele sequer tinha aberto a boca enquanto Diamante respondia os seus pensamentos…

No entanto percebeu claramente que aquele humano especial de alguma forma… Todos ali o ouviam e respeitavam como se a palavra final fosse dele. Aparentemente ninguém o contrariava…

Era estranho a ideia de que um humano fosse algo como o rei daqueles sáurios. “Isso se ele for realmente humano…’, pensa.

Diamante sorri. E a melancolia passa…

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