Capítulo 5 – O Banquete (Parte 2)


Naquele dia Meltse não viu mais os irmãos de Lamark. Quem sabe no tal banquete? O sáurio tinha dado a entender que a cidade inteira foi convidada. E que isso tudo era razoavelmente comum.

O ferreiro estava deitado, no quarto de hóspedes, olhando para o teto e esperando o tempo passar. Era engraçado como as coisas eram ao mesmo tempo tão urgente e tão… distante.

O que faria depois dali? Não fazia ideia… Aqueles enigmáticos humanos do outro dia pareciam ter algum tipo de plano… E ele sempre achou que Gaheris era um protetor do Reino… Se aquele exército abominável era o que ele considerava como proteção… Nem queria imaginar como ficaria o Reino no comando dele.

Esperaria pela explicação de Diamante e Alexsander… Embora duvidasse muito que eles pudessem realmente fazer qualquer coisa contra Gaheris. Afinal, eram apenas dois: um desconhecido, o outro fugitivo acusado de traição. O que eles podiam fazer para derrubar alguém em quem todos confiavam?

Enquanto isso, o sáurio tinha desaparecido já há algum tempo…

Lamark estava em seu antigo quarto: todo coberto de poeira, teias de aranha. E exatamente do mesmo jeito que deixou cinco anos atrás, quando partiu junto do pai. “Para aprender a ser um líder”.

Ele ri! Era até verdade que tinha aprendido muita coisa. Mas falhou miseravelmente na parte de ser um líder… Não! Não podia pensar assim. Henkel iria lhe dar uma surra se o ouvisse… E bem merecida.

Se pudesse… nem iria ao tal banquete. Encarar por horas um monte de sáurios mal humorados, balançando suas cabeças escamosas em pura reprovação.

Teria de pedir desculpas à Vatra… Era verdade que estava irritado e sem paciência, mas o que ele fez foi muito errado. Devia ter contado tudo de maneira mais calma… E não explodir daquele jeito.

Talvez ela jamais voltasse a olhar na cara dele… De caçoar de sua fraqueza. Por algum motivo aquilo deixava Lamark triste.

— Bem! Não posso simplesmente fugir das responsabilidades! — exclama para si — Eles podem rir de mim e torcer seus narizes o quanto quiserem! Eu vou de cabeça erguida como deve ser um líder Grischarr. Era o que papai faria!

Papai… Agora ele estava com sérios problemas… Não era mais um problema com prisioneiros… Tinha se esquecido totalmente disso! mas já era tarde… Já prometeu ajudar Meltse. E por algum motivo absurdo, Diamante concordava com aquilo!!!

— Ah! Que se exploda! Diamante que resolva tudo isso com papai!

Lamark se levanta num impulso, indo na direção de um armário. Escancara porta a porta. Lá dentro, uma armadura de placas, feita sob medida para o sáurio, quando tinha dezoito anos.

Só a usava em solenidades. Achava-a inútil, um estorvo. Atrapalhava os movimentos e a concentração. Estava empoeirada. Começa então a limpá-la: seria usada no banquete.

Meltse cochilava tranquilo quando Lamark o chama para irem ambos ao banquete: aparentemente o ferreiro era convidado de honra.

Sonolento ele lava o rosto e molha os cabelos na intenção de ficar minimamente apresentável: não tinha roupas para usar além das que vestia.

Então ele repara que o sáurio estava vestido com uma armadura, bonita e bem lustrada. Era muito parecida com a que o líder do acampamento sáurio em Hochberg usava. Não achava que combinava com Lamark. Este não parecia nem um pouco confortável.

— Vamos? — suspira.

Meltse se levanta e os dois seguem porta afora. Foram caminhando lentamente ao seu destino, qual quer que ele fosse. Os outros sáurios os encaravam de soslaio. O ferreiro não sabia dizer se era por causa dele mesmo ou se era a `reputação’ do seu amigo sáurio. Aquilo era desagradável…

Enquanto isso Lamark já estava acostumado com os olhares. Era sempre assim. Piorara quando seu pai insistiu quem ele seria seu sucessor, há sete anos. Tinha calafrios ao pensar que teria que encarar os outros líderes…

Conforme vão avançando, as ruas vão ficando mais cheias de gente. Várias mesinhas e cadeiras nas calçadas. As pessoas abriam espaço para eles passarem. Era confuso para Meltse. Ele via aqueles olhares de reprovação, mas mesmo assim respeitavam Lamark como líder.

Um sáurio permanece no meio do caminho. Vestia uma armadura de cota e portava lança e escudo. Com uma grande cicatriz no rosto e olhar severo, lembrava o sáurio que protegia Lamark.

Os dois sáurios se encaram. A tensão era palpável. Meltse queria estar bem longe dali. Lamark já sabia que aquilo iria acontecer mais cedo ou mais tarde.

— Vatra me contou — fala o sáurio, com voz grave e imponente. Falava no idioma comum.

Lamark abaixa a cabeça, o sofrimento estampado em suas feições. “Será ele parente de algum dos sáurios que acompanhavam Lamark?”, pergunta-se Meltse.

— Levante a cabeça e orgulhe-se, Lamark Grischarr! — exclama, fincando seu escudo no chão. O líder Grischarr fica surpreso e encara o sáurio a sua frente, incrédulo.

— Meu filho, Henkel, o escolheu como líder por vontade própria. Com orgulho no peito, jurou ser seu guardião até o fim de seus dias. E ele cumpriu seu juramento com honra! Portanto erga seu rosto até o céu e seja o líder que Henkel sempre acreditou que fosse! — uma lágrima solitária desce dos olhos do jovem sáurio.

— Não há mais um Trammfarr para protegê-lo… Por isso ofereço meu escudo para que fique sempre contigo. Assim meu filho continuará à protegê-lo até o fim do mundo. — e sái, deixando o escudo para trás.

— Obrigado… — murmura Lamark, pegando o escudo e colocando-o nas costas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s