Capítulo 5 – O Banquete (Parte 1)


Observando tudo nos arredores, Meltse não pôde deixar de notar que seu mais novo amigo sáurio, era alguém muito importante e de grandes posses. Será que os sáurios também tinham famílias nobres e ele pertencia a uma delas?

— Então… Lamark, você é algum tipo de nobre ou coisa do tipo? — pergunta o ferreiro, enquanto bebericava sua caneca.

— Bem… — o sáurio dá de ombros — Na verdade não. Ou sim. É diferente… Basicamente nós temos cinco grandes famílias que nós chamamos de clãs. E cada clã tem seu líder. A escolha é quase sempre hereditária, mas o sucessor tem que se mostrar apto e ser reconhecido pelos outros líderes.

Lamark observa o rosto confuso de Meltse tentando entender o que ele falava. Teria de simplificar mais a resposta…

— Sim… Você pode me considerar um nobre, eu acho: sou o líder do clã Grischarr, o clã dos guerreiros.

“Então os sáurios não tem famílias nobres, mas tem?”. Tentaria entender depois…

— Mas no fim… Eu sou líder de nada e todos só escutam meu pai… Ninguém me reconheceu ainda. E nem vão…

— Ué? Por que isso? Você parece ser um líder mais que satisfatório — exclama Meltse.

— Porque sou fraco demais para um guerreiro. Se duvidar sou fraco demais até mesmo para qualquer outro clã… Nasci no clã errado.

Lamark fica amuado. Não gostava de tocar naquele assunto. Tinha vergonha de sua fraqueza. Todos os que conviviam com ele sempre diziam que tinha algo especial. Mas ele mesmo não achava isso. Afinal… Se fosse assim tão… único e inspirador, os outros sáurios o respeitariam.

— Eu não acho que isso seja muito relevante. — retruca Meltse, irritado com o que o sáurio achava de si mesmo. — Além do mais, todos aqueles sáurios ficaram para trás! Para te proteger! — exclama, batendo a caneca na mesa com força — Porque eles acharam que a sua vida valia a pena! Nunca vi nem ouvi falar de ninguém capaz de inspirar pessoas a esse ponto!

Tinha falado demais. O sáurio o encarava, irritado. Às vezes fazia aquilo. Não conseguia se segurar ao ver alguém reclamando da própria vida. Seu pai sempre lhe ensinou a apreciar a vida como um todo. Os maus momentos estavam lá para que os bons tivessem sua devida importância.

Tinha falado demais. O sáurio fecha o punho. Lamark não sabia como reagir ao que Meltse disse. Soava igual Henkel. Foi exatamente o mesmo que ouviu da boca de seu companheiro de uma vida, quando ele decidiu continuar sendo o guardião de Lamark.

Estava irritado mas não como humano, e sim consigo mesmo. Talvez porque soubesse que, bem lá no fundo, Henkel, e Meltse, tinha razão. Ele estava chorando de barriga cheia e mesa farta…

Lamark bebe um copo de uma vez, para se acalmar. Não iria despejar sua raiva em quem não tinha culpa de nada e só falava a verdade, nua e crua, sincera.

— Me desculpe… Falei o que não devia — murmura Meltse.

— Não… Você falou o que devia. E o que eu precisava escutar! — “Você soa como meu guardião, Henkel…”, pensa.

E um silêncio violento cai sobre o ambiente. Denso e incômodo, deixava Meltse nervoso e acanhado. Lamark continuava comendo, perdido nos próprios pensamentos.

— Então… — o ferreiro tenta quebrar o gelo — Onde estão seus irmãos?

Lamark demora a responder. Pisca duas vezes as pálpebras, percebendo que a pergunta era para ele.

— Ah… Devem estar no campo de treinamento. Nós Grischarr começamos a praticar cedo. Com cinco ganhamos nossa primeira adaga… — Explica, fincando sua adaga na mesa — Aos doze escolhemos a arma que se tem afinidade: espada ou machado. Eu escolhi ficar com a adaga. E desde então todos zombam de mim…

Meltse nada fala. Agora se arrependia ainda mais de ter explodido para cima do sáurio. Afinal, ele levava uma vida cheia de julgamentos e cobranças. Isto ele próprio nunca sofreu. Mas também achava um absurdo. Ele sabia muito bem que um guerreiro não se resumia a apenas a força física…

— Bem. — murmura o sáurio — Isso são coisas do passado. E este já foi. O que importa é o agora. E mais tarde teremos um banquete `comemorando’ a minha chega à salvo. — sorri — O grande Lamark Grischarr, líder do clã Grischarr e o herói que sobreviveu ao assalto do terrível Gaheris! Ou algo assim. — e entorna sua caneca garganta abaixo.

Odiava esse tipo de evento. Mas Diamante fazia questão de preparar tudo. Se não fosse por ele, já teria perdido seu posto de líder há muito tempo. Líder de quem se só meia dúzia de sáurios o ouvia?

Já Meltse estava pensando: “Talvez a posição de líder de cão não seja equivalente às famílias nobres. Algo mais como os antigos reis…”

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