Capítulo 5 – A Casa Grischarr (Parte 2 – Final)


“As coisas não estão indo nem um pouco bem para Lamark”, pensa Meltse. O ataque… E agora a notícia de sua mãe… Se fosse com ele, estaria em choque. Os sáurios parecem levar a morte com mais calma.

— Bem… — murmura o sáurio — Estamos bastante exaustos da viagem. De tudo… Quais as chances de ter algum quarto preparado? — pergunta por fim à irmã.

A sáuria dá de ombros: — Na verdade nenhuma… As notícias de sua vinda foram muito repentinas. Só o quarto de hóspedes deve estar habitável… Sinto muito.

— Não, não. — fala Lamark, balançando a cabeça — Não é problema. Ficaremos no quarto de hóspedes mesmo. Só me chame se o mundo estiver acabando. — e sorri para a irmã.

E assim o sáurio segue porta adentro. Meltse hesita por uns instantes. Era para ele seguir? Na dúvida, ele acompanha Lamark. De repente ele se sente muito cansado, abatido. Era como se finalmente pudesse respirar e tudo o que se ignorou pelo bem da própria sobrevivência viesse atacando com toda a força.

O estresse do ataque à vila. A frustração de ter sido capturado. O… massacre do comboio. A fuga desenfreada pela floresta… Nem sabia como não tinha enlouquecido! Meltse aperta com força a madeira em suas mãos. Era aquele arco e o desejo de vingança que mantinham sua sanidade.

Já Lamark sentia um grande vazio no peito. Era a primeira vez que perdia companheiros de armas. Tinha que ser daquela forma tão horrenda? Sequer entendia por que diabos aquele exército estava ali tão próximo de Flussevir. Enlouqueceram de vez a ponto de perder o temor por Diamante?

Apesar de tudo, o sáurio não tinha desejo de vingança, como o humano. Sabia que era uma fixação, que turvava o raciocínio e fazia a pessoa cometer erros irreversíveis. Só que também não poderia deixar aquele monstro assassino Gaheris solto por aí fazendo seus exércitos de abominações…

Ambos ainda teriam muito tempo para pensar sobre o que iriam fazer no futuro. Ou era o que achavam. No momento só o que realmente queriam era descansar.

Estavam tão exaustos que até mesmo um quarto de hóspedes meio empoeirado era como um quarto de reis.

Este era um cômodo grande: tinha estantes, mesa, cadeiras, escrivaninhas e quatro camas. Humano e sáurio despencam cada um em uma cama. O último pensamento de Meltse antes de dormir era o quão macia era aquela cama.

E assim os dois dormem. Pela primeira vez em dias sentiam-se seguros. Aquele lugar dava uma sensação de paz muito gratificante. Descansam por um dia inteiro.

Meltse acorda com uma incômoda luz no seu rosto. Levanta-se de súbito, achando que ainda estava na floresta. Só depois de alguns instantes que lembra estar a casa de Lamark.

O quarto estava completamente iluminado. O ferreiro não fazia a menor ideia de como aquela luz toda ia aparar ali dentro.

Lamark não estava no quarto. Ao lado de Meltse havia uma bacia com água, uma toalha e uma muda de roupas. Roupas humanas. Tinha também um sabonete. Cheirava bem. Nunca tinha visto um antes. Era artigo de luxo.

Já fazia um tempo que não tomava um banho. Suas roupas estavam imundas, suadas e rasgadas. Só então percebe: estava num estado deplorável. A bacia d’água e o sabonete eram uma dádiva.

Sem pressa, Meltse tira as roupas surradas e se lava com a água. Experimenta o sabonete. Era como mágica: a sujeira da pele saia com tanta facilidade!

Depois de limpo, ele experimenta as roupas. Era uma calça e uma camisa, além de um colete e botas de couro. Não sabia de que era feito a camisa e a calça, mas era macio e quente. Cabiam bem nele! Isso era raro, já que era bem grande.

Tinha acabado de calçar as botas e estava sentado na cama, pensativo. Olhou para as suas antigas roupas. Agora limpo e com roupas lavadas, aqueles… trapos pareciam piores do que antes. “O que vou fazer agora?”.

Sua barriga ronca. Sente o cheiro de carne assada vindo de algum lugar. Primeiro resolver os problemas mais imediatos: comer. Sai do quarto e vai atravessando corredores, seguindo o cheiro de comida. Aquela casa era realmente grande.

Por fim chega a fonte de comida: um cômodo colossal com entalhes e pinturas nas paredes e uma grande mesa onde cabia-se mais de vinte pessoas. Este também muito bem iluminado.

Lamark estava sentado no lugar de honra, devorando um grande naco de carne. Havia outra refeição posta no assento ao seu lado direito:

— Meltse! — exclama o sáurio ao ver o humano à porta — Venha, sente-se! Deve estar faminto, seu dorminhoco!

E estava mesmo! O ferreiro segue rapidamente até seu lugar. Afinal havia sido convidado. Sem cerimônias, dá uma primeira mordida na carne, aplacando a força da fome. Lamark sorri.

Na mesa também tinha uma grande jarra com algum líquido desconhecido para Meltse e uma cesta cheia de pãezinhos, além de um prato com mais carne para quem quisesse repetir a refeição. O ferreiro enche uma caneca com uma bebida levemente alcoólica e de sabor cítrico. Matava a sede com rapidez.

Parecia que já fazia uma eternidade que tinha uma cama para dormir e uma mesa para comer…

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