Capítulo 4 – O instinto de um lobo (Parte 2 – Final)


O inusitado grupo descansa à sombra das árvores. Nem parecia que há poucos dias estavam fugindo de um assassino. Tranquilos aproveitavam a relva fresca para tirar um cochilo.

Seire sente-se mais relaxada. Achava-se estúpida pela paranoia que sentiu antes. A fragrância das folhas, que já começavam a ficar amareladas; a brisa morna; os raios do sol passando por entre a copa das árvores. Tudo ali trazia um ar de serenidade que achava que nunca mais sentiria. Uma paz interior incrível.

“Aqui é como um templo, só que ao ar livre”. Seus novos sentidos ainda a deixavam extasiada. Cada árvore cheirava diferente. Conseguia distinguir vários animais ocultos ali na floresta. Até a brisa tinha um odor que antes seria incapaz de sentir.

E os sons! Nunca imaginava que uma floresta era tão rica deles. A brisa cantando uma música diferente para cada árvore. A respiração dos animais; seus corações batendo. Era barulhento, mas estranhamente gratificante. Ser um monstro-lobo não era de todo ruim.

Seire sente uma fisgada no coração. O que seria do culto de Néphise agora? Não acreditava que tinha esquecido!!! “A deusa está me cutucando por esquecê-la”, pensa. Será que conseguiria reerguer o templo? Sequer sabia se terminaria aquela viagem viva…

Olhando ao redor, a garota-lobo percebe que Raffléia e Hafix dormiam. Desta vez sem roncos da sáuria. Arth estava sentado, ou deitado. Não sabia dizer ao certo. Era confuso saber se um centauro estava sentado ou deitado. Estava acordado, o olhar fixo no horizonte, absorto nos próprios pensamentos.

“Eu poderia ficar aqui para sempre”. Na verdade, não podia. Tinha uma promessa a cumprir: reconstruir o monastério e deixar tudo de uma maneira onde ele durasse até o fim dos dias.

De repente a loba sente algo ruim. Um instinto tão forte e súbito que, antes de esboçar qualquer pensamento, a fez levantar e saltar de onde estava: tinha se transformado em lobisomem.

“Os outros!”, grita seu instinto.

E assim, numa velocidade impressionante, ela vai até Hafix e Raffléia, colocando-os em seus ombros, para logo em seguida empurrar o confuso centauro , que não sabia o que se passava.

Seire também não sabia. Só que, se ela não tivesse feito tudo aquilo, a jornada acabaria ali mesmo: nos lugares onde descansavam surgem do chão estacas de madeira. Algo tinha tentado assassiná-los!

— Mas… O quê?… — murmura Arth ao ver as estacas brotarem onde pouco antes ele estava.

Já o humano e a sáuria estavam atordoados demais para esboçar qualquer reação.

A loba fareja. Não havia nenhum odor estranho. Não ouve nada além do barulho da floresta. Então sente uma leve vibração abaixo dos seus pés. Era o que tinha alertado seu instinto.

Novamente a loba salta, carregando Hafix e Raffléia. E novamente surgem as estacas do chão. No entanto ela não conseguia distinguir nada de estranho ao redor, apenas uma sensação ruim.

Arth estava a postos, também a procura do agressor. Ele sabia que aquilo era magia. Sua nuca se eriçava sempre que alguém usasse qualquer tipo de mágica perto dele.

Raffléia já não estava mais confusa e percebe mais ou menos o mesmo que o centauro. Era magia poderosa. E maligna.

Mais uma vez o chão sobe Seire vibra. E mas uma vez ela salta, salvando-se das estacas. Parecia que agora elas estavam mirando apenas nela. Seria?..

Não teve tempo para pensar. Ouve um barulho poucos metros à suas costas. Era uma distração. Raízes prendem seus pés antes que ela pudesse reagir.

A garota-lobo tenta se livrar da armadilha. No entanto, nem toda a força que tinha naquela forma monstruosa era capaz de quebrar as raízes.

Estava presa e logo viria mais um ataque! Ela coloca humano e sáuria no chão, exasperada:

— Corram!

Raffléia, já acostumada com batalhas, percebe o que estava para acontecer e puxa o confuso Hafix para longe de Seire, enquanto rezava a Regigleph que a garota sobrevivesse àquilo.

E assim a loba, e apenas ela, é atravessada pelas estacas. Perfuraram sua pele dura e sua carne como se fossem feitas de manteiga. Tão rápido surgiram quanto se foram para debaixo da terra, deixando em Seire diversos buracos, do tamanho de um punho fechado.

Ela não sente tanta dor, mas só de ver quanto sangue saía de suas feridas já sabia que estava numa situação crítica.

Ela era o alvo! Quem quer que estivesse fazendo aquilo, decidiu ignorar seus companheiros e focar apenas na loba. Não queria acreditar que pudesse ser o tal Grael. Já estava a dias de distancia de Fafalar! Mas essa era a única resposta plausível, afinal ele era o único que a queria morta.

Sente as feridas lentamente fechando, e a fadiga tomando conta de seu corpo. Ela blasfema: agradece à deusa por ter aquele corpo amaldiçoado.

Com sua perna presa, leva outra saraivada das estacas. Os novos ferimentos já não regeneravam tão rápido quanto os anteriores. Se continuasse daquele jeito, ela logo morreria.

A garota-lobo fecha os olhos e range os dentes, à espera do terceiro golpe.

Um golpe que nunca veio…

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