Capítulo 4 – O instinto de um lobo (Parte 1)


Dois dias já tinham passado desde que Seire e os outros partiram às pressas de Fafalar. Não haviam encontrado nem estrada, nem vilarejo, muito menos uma cidade. Seguiam desbravando a floresta, atravessando por estreitas trilhas feitas por animais.

E mesmo assim, a loba continuava aflita. Seu instinto gritava `perigo’ e sua cabeça latejava como nunca. No entanto, mantinha tudo isso guardado para si. Afinal aquilo tudo era apenas paranoia dela…

Ela olha ao redor, a procura de qualquer coisa estranha. Nada encontra. Estavam naquele momento descansando às margens de um riacho. Hafix pescava com uma vara improvisada. “Então ele sabe fazer alguma coisa!”.

Peixe seria muito bem vindo naquele momento, principalmente para a sáuria, que não suportava estar sem algum tipo de carne. Até ali eles se alimentaram somente de frutas que iam achando pela floresta. A elfa Loriel tinha colocado algumas reservas de comida em suas bagagens, mas Raffléia achou melhor deixá-las para emergências. Era sensato.

Seire espia mais uma vez. Nada. Nenhum cheiro estranho também. Os outros pareciam despreocupados. “Estavam à salvo”, pensam.

Arth percebe a estranha inquietação da garota-lobo:

— Algum problema? — pergunta ele.

— Não… Só estou pensando em umas coisas…

O centauro entende aquilo como um `não quero falar’ e se afasta da garota, dando de ombros. Afinal, se ela quisesse dizer alguma coisa ela simplesmente falaria, não é verdade?

Raffléia, que dormia à sombra de uma árvore, logo acorda com o cheiro de peixe frito. Estava faminta! E para a sua alegria Hafix era bom pescador.

Todos comem sem pressa. O sol estava inusitadamente quente para aquela época do ano. Mesmo sentados à sombra, gotas de suor desciam por testa e nuca. Só a sáuria não se incomodava.

— Hum… hum… Melhor repousarmos até o fim da tarde. — comenta Raffléia — Está calor. Uma caminhada agora só vai nos estafar e pouco avançaremos.

— Mas não seria perigoso à noite? — pergunta Hafix. Era verdade que não queria caminhar naquele calor, só que tinha muito medo do tipo de coisa que uma floresta escondia durante a noite.

— Não creio. — responde Arth, de súbito — Posso cuidar de animais selvagens sem problemas. Bandidos? É eles quem têm que se preocupar.

Seire pensa: “Também pode aparecer algo que não seja nem animal nem pessoa”. Algo dentro de si dizia que a noite traria problemas muito piores do que imaginavam.

“E essa sua paranoia novamente! Não vai acontecer nada! Não há nada para acontecer!”

Um frio corre pela espinha da loba. Ela tem um lapso de memória. Do dia em que tudo ruiu…

“Era manhã cedo. Ainda estava escuro: o sol só apareceria uma hora depois. Estava em seu quarto, estudando. Era privilegiada. Quando descobriram que tinha aptidão para magia, ainda criança, foi dispensada de todos os afazeres mundanos e todo o seu tempo ficou dedicado ao aprendizado clerical, juntamente com os outros iniciados

Ela sente o cheiro gostoso do pão assando. E também alguma outra coisa que a deixou apreensiva. Sequer teve tempo para raciocinar: a sua frente surge um grande cão negro.  Assustada, se afasta. Como aquela criatura tinha aparecido ali?

Um odor pungente e adocicado atinge suas narinas: vinha do cão. Assim ela percebe seu aspecto pegajoso e doentio. Não era feito de carne e ossos, mas sim de uma gosma negra.

A criatura avança para cima de Seire, mordendo-lhe o pescoço…”

Seire cai para trás, no susto da visão. Os outros três também são surpreendidos.

— O que houve, senhorita? — pergunta a sáuria, com o rosto reptiliano demonstrando preocupação. Logo acima de Seire, como na primeira fez que se encontraram.

A garota-lobo pisca, tentando se situar. Era `só’ uma lembrança…

— Eu… lembrei de algo. Eu acho. Não sei bem. — murmura enquanto põe dois dedos na testa para aplacar uma súbita dor de cabeça.

— Hum hum… Bom sinal. Corrupção se esvaindo. Sanidade voltando. Muito bom.

Seire não concordava com a sáuria, mas prefere nada falar para não causar uma desavença.

Já Hafix não fica tão satisfeito com a `explicação’ de Raffléia. Mas também não sabia o que falar para Seire.

Na verdade mal a conhecia. Ou a qualquer um ali. Viajavam juntos como camaradas mas nada sabiam uns dos outros.

Ele resolve fazer a única coisa que vem a sua mente: segue até o riacho e enche uma caneca com água, entregando-a para a loba.

— Aqui. Não sei o que houve. Um copo d’água deve ajudar a se acalmar.

Seire sorri, agradecida com aquele gesto de gentileza. A água estava fria e saborosa.

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