Capítulo 4 – As Maquinações de uma Raposa (Parte 1)


Seire acorda. Sentia-se descansada. Era a primeira vez que consegue dormir por tanto tempo depois do que aconteceu em Néphise. Não sabia por quanto tempo havia dormido.

Olha ao redor. Raffléia ressoava tranquila, na cama do lado. Hafix devorava um grande pedaço de pão embebido em sopa. Arth estava em pé, ao lado da cama da sáuria, com os olhos fechados. Seire não sabia dizer se dormia ou apenas meditava. Havia uma vasilha com água e uma toalhinha numa mesinha ao lado de sua cama.

A garota-lobo lava o rosto, tranquila. Não conseguia lembrar a quanto tempo não sentia tanta serenidade.

— Você dormiu por um dia inteiro! — exclama Hafix, algumas migalhas saltando de sua boca — Eu me dei a liberdade de come sua refeição de ontem. Raffléia disse que era melhor não lhe acordar.

“Sem problemas”, pensa. Para Hafix, ela apenas dá de ombros. Não queria quebrar sua tranquilidade no momento.

Em silêncio, como era seu costume, ela se senta a mesa e se serve com um copo da água e do pão. Deixaria a sopa para o fim: estava fumegando. Outra refeição semelhante esperava seu dono, provavelmente Raffléia.

Era uma refeição simples, mas muito saborosa. A água era pura, o pão tinha um sabor… curioso. Saboreava cada pedaço com apreço. Hafix a observava, curioso.

— Então… Você não fala? — pergunta subitamente Hafix, quando Seire termina de comer o pão — Bem… Eu… sinto muito pelo jeito como eu te tratei antes.

Seire o encara por uns bons segundos. Ela percebe um certo receio, ou medo, em Hafix. E sinceridade. Aquele homem estava genuinamente se sentindo culpado por sua reação no outro dia:

— Não há problema. Eu mesma fiquei chocada e com medo com o que eu me tornei… — E volta-se, sem pressa para a sua sopa, já não tão quente.

— Raffléia, a sáuria, me disse que homens-lobo nascem assim, não se tornam. É uma raça, não uma doença ou maldição. Você não deveria se sentir tão mal…

Seire sorri. Ele estava tentando animá-la. Só não sabia se aquilo iria alegrá-la. Então ela nunca foi humana? Não era um pensamento muito promissor…

Hafix não fala mais nada. Sentia-se estranho próximo daquela criatura. Era diferente de Raffléia e Arth. Achava ser medo, mas de pouca intensidade, mais como se fosse um desconforto.

E a garota não colaborava. Tentava de um tudo manter uma conversa, mas ela agia daquele jeito, mal falava, comia com uma lentidão enervante. Raffléia já falava por duas.

— Hum hum… Senhorita Seire! Sente-se melhor? Descansada? — pergunta a sáuria, que tinha acordado a pouco, enquanto se senta a mesa e se serve — Dormiste por um dia e uma noite! — parecia animada.

“Por que em nome da Deusa esses dois falam tanto durante uma refeição?” Seire acena afirmativamente com a cabeça.

A sáuria então começa a conversar com Hafix. Falavam principalmente sobre elfos. O humano parecia ter uma curiosidade insaciável.

E Raffléia ia explicando. Como haviam vários `tifos’ diferentes de elfos, dependendo do lugar. Elfos da floresta. Elfos da tundra. Elfos da selva. Elfos das montanhas. Elfos do deserto. Elfos do mar. Elfos dos rios… Elfos, elfos, elfos…

Também fala que todos os elfos tem um rei e uma rainha, que manda em todos. Tem ducados, burgos, condados… Era coisa demais!

Seire tinha terminado sua sopa. Só não via a menor necessidade de continuar ali ouvindo aquela verdadeira verborreia. Sem saber o que falar, ela vota para a sua cama.

Sente um cutucão leve no ombro. Era Arth.

— Quer sair para conhecer a cidade? Esses dois não vão parar de falar tão cedo… — murmura o centauro.

Ela acena afirmativamente. Não queria saber como o centauro sabia que os dois não parariam de falar.

Em silêncio, os dois saem do quarto. O sol a pino os recebe com fervor. Tudo estava mais brilhante. As ruas, apinhadas de elfos, um completamente diferente do outro.

Peludos, sem pelos, altos, baixos, de diversas cores. Todos graciosos e esguios. Todos olhavam desconfiados para Seire e Arth. A garota-lobo se sente muito desconfortável com aqueles olhares tortos. O centauro já relevava: era acostumado com a reação.

Apesar de tudo, Seire aproveita a vista. Tudo era ainda mais bonito de perto. Todos os prédios, as árvores, eram ricamente decoradas com relevos. Só acha estranho não ter nenhuma pintura.

Arth nada falava. Apenas seguia ao seu lado. “É uma boa companhia”, pensa Seire. Estava feliz. Praticamente não lembrava mais de sua recente tragédia.

Então, enquanto caminhavam, um elfo começa a acompanhar os dois. Posicionou-se do lado de Seire e por um tempo ficou ali, calado acompanhando loba e centauro. Não consegue ver seu rosto: estava encapuzado.

— Preciso falar algo importante a você, loba. Por favor, siga-me. — murmura subitamente o elfo, que se afasta e vai em direção a uma árvore de médio tamanho.

Confusa, Seire olha para Arth, a procura de respostas. Este apenas dá de ombros, indiferente.

Ela decide então seguir o estranho elfo.

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