Capítulo 3 – Flussevir, as Águas Eternas (Parte 1)


A noite passa sem contratempos. Sáurio e humano se sentiam um pouco melhor. O pesadelo do dia anterior continuava em suas mentes, mas uma nova e silenciosa resolução os preenchia.

Meltse não tirava de sua cabeça a ideia de encontrar uma forma de se vingar, matar o maldito Gaheris, líder daquele exército de abominações. Lamark, mesmo sem querer admitir, tinha ideias parecidas, e com uma noção melhor do quão impossível seria aquela missão. “Talvez no futuro…”

Ainda antes de realmente amanhecer, os dois iniciam a travessia da floresta. Queriam sair dali o mais rápido que podiam. Lamark vai a frente, levando sua montaria cansada pelas rédeas, enquanto Meltse o segue logo atrás, segurando seu novo arco, sua Vingadora Majestosa. Sente que ela seria importante para sua vingança.

A floresta ali era bastante densa. Sem trilhas. Uma travessia difícil e cansativa. Em pouco tempo o suor começa a escorrer e a fadiga volta com força total. E o mais importante: quase impossível de se atravessar montado.

O cansaço no entanto não afetava a eles: ambos sabiam que não podiam parar. Tinham permanecido no mesmo lugar por tempo demais durante a noite. Nem queriam imaginar na hipótese de estarem sendo perseguidos por aquele exército… Aqueles monstros! Aberrações!

Não teriam a menor chance…

— Já estamos bem próximos — fala Lamark. Já era quase meio dia.

Em pouco tempo eles chegam na borda da floresta. E em uma imponente cachoeira.

“Estamos no Rio Grande?”, pergunta-se Meltse. Ele sabia que sua nascente era em algum lugar das cordilheiras Beor. Era conhecido como o maior rio do Grande Reino, cortando-o de ponta a ponta. Ninguém sabia onde ficava sua nascente…

Havia também uma grande árvore a beira do rio, próximo onde estavam. Era uma bela vista, mas não existia mais nada ali.

Meltse fica confuso. O sáurio tinha dado a entender que bem ali estaria a tal grandiosa Flussevir. No entanto, a única coisa que via era a grande cachoeira, o rio, um amplo descampado e aquela árvore isolada.

Lamark se aproxima de tal árvore, lenta e solenemente, enquanto Meltse apenas o segue, apreensivo. O sáurio a observa por alguns segundos e respira fundo:

— Lamark Grischarr, filho de Hamur Grischarr, líder do clã Grischarr, solicita permissão para entrar em Flussevir, as Águas Eternas.

“Ele está falando com uma árvore”, pensa o ferreiro, achando que o sáurio estava ficando maluco… Até que a paisagem a sua frente começa a mudar!

Como que por mágica, e provavelmente o era, vai surgindo uma cidade bem a sua frente, dividida pelo rio. Construções de pedra calcária, branca, reluzem com a luz do sol. Várias pontes ligavam um lado ao outro da cidade. Do lado da cachoeira desponta a abertura de uma grande caverna. Centenas de sáurios caminhavam pelas ruas. A cidade era linda… E talvez tão grande quanto Athos, a capital do Grande Reino!

Meltse pisca, incrédulo. Como podia algo grande daquele jeito ficar oculto da visão? Já era um choque descobrir que existiam pessoas capazes de usar magia! Imagine algo daquela magnitude! Porque claro que aquilo só poderia ser mágica!

Um sáurio de armadura de placas e armado com lança e escudo estava encostado na árvore. Meltse dá um passo para trás, surpreso. Não havia ninguém ali poucos segundos atrás.

Indiferente a reação do humano, tal sáurio caminha em direção a Lamark, levantando sua lança e a apontando para o pescoço dele.

— Desde quando o líder do clã Grischarr precisa pedir permissão para qualquer coisa? — pergunta o sáurio de armadura, com voz feminina.

— Todos tem que solicitar permissão para entrar em Flussevir! Até mesmo um líder de clã, Vatra Trammfarr! — responde Lamark, irritado e rangendo os dentes.

A sáuria, de nome Vatra, então recua com a lança e começa a rir, zombeteira.

— Eu ouvi falar que você estava vindo com um comboio de humanos e sáurios! O que houve? Incompetente demais para liderar um grupo? Ou vocês encontraram problemas e Henkel teve que ficar para trás para corrigir suas besteiras?

Lamark engole seco. Não estava com a menor vontade de explicar aquilo para Vatra. Mas ele tinha a obrigação, não é verdade?…

Meltse, fica muito zangado com aquilo. Como ela podia falar daquele jeito quando sequer sabia do inferno que aconteceu?!

— Vatra! Não fale do que não sabe! — fala Lamark, imponente. — Nós fomos atacados pelo exército de Gaheris. Não quero ficar aqui com briguinhas com você! Preciso ver Diamante agora.

— Não… — Vatra leva a mão a boca, chocada — Eu… Sinto muito… Mas… Não! — ela sai correndo, se perdendo na multidão. Meltse percebe uma lágrima nos olhos dela logo antes de sua saída repentina. Talvez fosse próxima de algum dos sáurios que… ficaram para trás.

Lamark apenas a observa sumir na cidade, um tanto deprimido, para então voltar a caminhar.

— Foi bem merecido. Ela foi muito rude. — murmura Meltse, acompanhando o sáurio.

— Não, ela não merecia. Fui cruel demais… — e nada mais diz.

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