Capítulo 3 – Vingadora Majestosa (Parte 2 – Final)


Lamark percebe o tom de frustração em Meltse. Ele olha novamente para o arco. Tinha sido uma ferramenta supostamente criada apenas com o intuito de caçar algo para aquele dia e não dormirem com fome. No entanto, por algum motivo aquele humano dedicou toda sua habilidade para fazer uma arma formidável. Ele entendia o descontentamento de Meltse.

— Talvez seja melhor abandonar isso aqui e fazer uma armadilha para coelhos… — murmura o ferreiro, completamente desapontado.

— Faça isso! — exclama subitamente o sáurio, lembrando de algo — Enquanto isso vou lhe arrumar a melhor corda para arco do mundo! Essa arma que fez merece!

E assim Lamark toma o arco das mãos de um Meltse frustrado e dispara com ele floresta adentro.

“Ele não tinha dito que não era seguro explorar a floresta a noite?”. Bem, com ou sem sáurio, ele precisaria de alguma coisa para comer. Sem saber o que o sáurio poderia fazer, ele começa a fazer uma armadilha. E se via desejando o retorno a salvo de Lamark…

Enquanto isso o sáurio, mesmo sabendo que corria perigo andando sozinho, segue floresta adentro a procura de uma árvore especial. Ele mesmo não conseguia compreender o motivo de estar fazendo aquilo. Era estranho… Seu racional dizia que aquilo era uma péssima ideia, mas se via ali, explorando uma floresta perigosa a noite, a procura de uma árvore de caule branco e longos cipós.

Ele bem lembrava que era possível fazer uma corda de primeira qualidade com esses cipós. Se eles fossem preparados adequadamente. Era a única coisa que tinha em mente: criar uma corda perfeita para o arco perfeito.

O sáurio estava com sorte. Logo encontra uma. Claro que havia várias delas naquele lugar, mas Lamark disso não sabia.

E assim ele se aproxima do tronco, até encostar seu focinho na casca. Solenemente começa a murmurar palavras num idioma muito, muito antigo. O mesmo usado por todos os sáurios quando queriam utilizar-se de magia.

Conforme ele pronuncia tais palavras, os cipós se desprendem da árvore e começam a flutuar suavemente ao redor dela. Vão se entrelaçando, formando uma corda. E logo em seguida se desfazem, apenas para se entrelaçarem novamente.

E assim se segue num movimento hipnótico. Lamark não mais sabia exatamente o que estava pronunciando… Mas seguia, com uma convicção que ele não sabia de onde vinha… Até recitar a última palavra.

O resultado: uma corda fina e resistente, de comprimento exato para o arco que tinha em mão e de uma tonalidade branca, igual ao caule da árvore. Estava feita.

No entanto sabia de alguma forma que aquele arco ainda precisava de algo mais… Por isso o sáurio extrai um pouco de seiva da mesma árvore. Era uma seiva estranha, de um azul claro muito bonito e cheiro agradável: tinha propriedades mágicas.

Ele enche um pequeno frasco com ela e recita alguns encantamentos. Nunca tinha feito aquilo antes. Era como se estivesse possuído. Ou como se a própria floresta o estivesse guiando…

Por fim, Lamark usa a seiva, já encantada, na decoração do arco. Enquanto desenha padrões espirais, recita outras palavras em idioma antigo. Essas ele sabia o que significavam…

Com o arco decorado numa mão e a corda na outra, ele volta para onde havia deixado Meltse, alguém quem agora ele já considerava um amigo, apesar de mal conhecê-lo. Circunstancias difíceis uniam pessoas. Lamark encontra Meltse já terminando de fazer uma armadilha. Um punhado de flechas rústicas eram visíveis sob seus pés:

— Agora pode concluir seu arco, amigo. — fala, sorrindo — E ele não servirá apenas para caçadas, posso garantir! Se bem que isso já sabia.

— Obrigado… — responde Meltse, irritado com a palavra `amigo’ saindo dos lábios do sáurio — Mas não me lembro de sermos amigos. Estamos apenas na mesma situação difícil. Não confunda as coisas. — e toma das mãos do sáurio o arco e a corda, sem prestar muita atenção.

— Entendo… — murmura Lamark. Sente-se chateado e também frustrado. Só que de nada adiantaria discutir naquele momento. Talvez depois que chegassem em Flussevir.

Meltse conclui então o arco, surpreso tanto pela corda ter o tamanho exato para aquele arco quanto pelas marcas azuis que não existiam antes. E as surpresas tinham apenas começado!

Ao testar o arco percebe que era muito fácil encordoá-lo. Também parecia mais leve do que antes. Ele encara Lamark por um tempo, que estava visivelmente zangado.

Meltse acha tudo muito estranho e pensa logo que o sáurio tinha sabotado seu arco. Entretanto, após atirar uma flecha para teste e vê-la ir mais longe e ser mais certeira do que ele imaginava ser possível, Meltse percebe finalmente que foi injusto com Lamark. Então lembra que o sáurio havia falado sobre ser um mago e se arrepende de ter sido tão grosseiro.

— Ele precisa de um nome – murmura Lamark.

— O arco?

— Sim… — e não fala mais nada.

— Lamark… — fala, hesitante — Preciso pedir desculpas… Eu não sei o que fez com este arco, mas ele é magnifico! Você só faria isso para alguém que considerasse um grande amigo, não é verdade?

Lamark acena afirmativamente com a cabeça. Meltse pensa que aquele seria um bom momento para perguntar sobre aquele exército abominável…

— Então… Você sabe quem era aquele exército? — pergunta, sem saber exatamente como tocar naquele assunto.

Lamark já esperava aquela pergunta. Só não imaginava que seria naquele instante, onde falavam do arco… Ou talvez soubesse o que Meltse queria…

— O exército de Gaheris… Você deve conhecer, já que os humanos pensam que eles são boas pessoas, eu acho… — e encara Meltse — Sei o que você quer, e não vai querer vê-los novamente. Eles… não têm alma.

— Faz sentido. Eu senti náuseas e um medo terrível quando eles chegaram…

— Não sei… Dizem que Gaheris amaldiçoa o próprio exército.

— Bem, — Meltse respira fundo — como você disse, eu realmente conheço o nome Gaheris, mas achava que era um dos guardiões da rainha Branca.

— Era. Ela morreu, e agora ele comanda tudo. O outro guardião a matou. Os dois são demônios! Muito poderosos. Impossível de matar!

Meltse soca com força o chão:

— Mesmo assim! Eles assassinaram a todos, meus conterrâneos, seus companheiros! Você não vai fazer nada?! — explode, se sentindo frustrado.

— Eu sei quais são meus limites. — o sáurio dá de ombros — Não posso fazer nada… Ainda.

Meltse decide atirar outra flecha, pensando nesse tal Gaheris, ódio e rancor brotando de si. Teria sua vingança! Ao acertar o tronco de uma árvore, ele se parte ao meio! O ferreiro se admira ainda mais e pensa em um nome perfeito:

— Vingadora Majestosa! — fala por fim, e encara o sáurio.

“Então o que ele quer mesmo é vingança? Talvez eu o acompanhe…”

Em seguida Lamark se levanta, vai até Meltse e desfere um belo soco no rosto dele. O O humano cai no chão com o impacto, o nariz sangrando. E os dois voltam a rir, feito bobos, como se aquilo tudo fosse muito engraçado.

— Vingadora Majestosa, hein? Eu chamaria de Senhora dos Ventos, que é o nome de uma arma lendária, há muito perdida. Até mesmo porque… vingança nunca trás coisas boas. — comenta o sáurio.

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