Capítulo 3 – Oração aos Mortos (Parte 3 – Final)


Meltse observava tudo em silêncio. De alguma forma sabia que aquilo era algum tipo de ritual para honrar aos mortos… Não gostava daquilo… Significava que o sáurio tinha a certeza absoluta da morte de todos os que ficaram para trás. Se os sáurios, livres, armados, não tinham chances de sobrevivência… Não queria concluir o pensamento.

Ouvia as palavras estranhas pronunciadas pelo sáurio. Soavam importantes. Um mantra que deixa Meltse em estado de transe. Flashes de memória do ocorrido vinham de forma aleatória…

O escudo caído e o braço quase decepado de um sáurio, enquanto todos os outros dividiam comida na refeição tranquila do dia anterior… Para logo em seguida ouvir os gritos de dor dos seus colegas e vizinhos enquanto via a paisagem calma da trilha na floresta.

Estava enlouquecendo…

Lembra-se do vislumbre que teve dos olhos negros dos soldados. Teria sido um sonho? Pesadelo? Algo no fundo de sua alma dizia que não.

— Então… Estão todos mortos… — murmura, ainda sem querer acreditar.

“Como vou dizer isso para todos? Não posso mais voltar a Hochberg sem ter feito nada… Preciso vingá-los! De algum jeito…” — pensa.

“Nem enterrá-los eu poderei, não é verdade? Eles deveriam ter um enterro digno… O que é impossível.”

“Morreram sem poder fazer nada… ”

“Zepelli Trevizani, que era conhecido como um excelente guerreiro de terras distantes. Morreu sem sua espada. Não foi a morte de um guerreiro…”

“Ralph e Colodi… Tentei de tudo para mantê-los longe de maiores perigos. Agora… Com tão pouca idade tiveram suas vidas tomadas de forma brutal, como contavam as histórias de muito tempo atrás. De antes da unificação do Reino… Falhei com os dois…”

“Marco, o fazendeiro e caçador experiente. Tinha sobrevivido a tempos terríveis para morrer daquela maneira em tempos de paz? O destino é cruel… Só porque queria proteger os dois jovens… Horrível.”

“Rachel… Um espírito livre. Sempre fazia o que lhe dava na telha. Briguenta mas de bom coração, sempre estava lá quando alguém precisava. Para morrer assim, presa, dentro de uma gaiola, sem ter a mínima chance de se defender?…”

“E Martha Metzgar. Uma criatura batalhadora. Parecia ser dura e ranzinza às vezes, mas era na verdade gentil e carinhosa. Não teve filhos, no entanto adorava crianças. E adorava histórias. E contá-las… Sua falta será sentida por todos…”

O que farei agora? Fugir não seria problema, afinal o sáurio estava completamente distraído. Mas para onde iria? Para quê? Chegar na vila e dizer: Sinto muito, todos morreram e a culpa é minha?

Não, não… Tinha que descobrir quem fez aquilo! E se vingar. Assim pelo menos teria coragem de encarar os outros. Não seria tão vergonhoso se ao menos voltasse com o sangue dos agressores em suas mãos, não é verdade?

Não sabia dizer…

Bem… Primeiro teria que descobrir quem diabos controlava aquele exército. De nada adiantaria acabar com os soldados se o líder continuasse vivo e contratasse mais…

Ora! O que estou pensando?! Eu sequer consegui reagir e estou querendo enfrentar aquelas… abominações?! Sozinho?

Não sei o que fazer…

Meltse então começa a chorar, impotente. Chora pela morte de todos. Pela sua incompetência. Pela sua vergonha…

Não podia voltar a Hochberg. Não podia sequer se vingar. Não podia nada!

Será que o sáurio está pensando o mesmo que eu? Ao menos ele conseguiu reagir… Ele e todos os outros sáurios. Eles sabiam o que estava por vir, não é?

Talvez eu pergunte para ele quem era aquele exército… Mas não sei se ele me ouviria agora.

E Meltse continua a observar o sáurio, absorto talhando alguma coisa na árvore.

Sáurios lamentam os mortos também, então…

Lamark observa o que havia talhado. Estava tudo lá, escrito. Estava feito. Agora teria que se preocupar com as coisas práticas.

Teria que ir a Flussevir e relatar tudo o que aconteceu… Não seria nada fácil. E também teria de levar o humano. Afinal, era o que tinha prometido, não?

E estava ele ainda deitado o chão, sobre as folhas caídas. Também sofria com a morte dos outros. O sáurio percebe que havia algo além da dor no olhar vazio do humano…

O que seria aquilo? Raiva? Medo? Não sabia discernir direito.

Bem… Agora eram companheiros no sofrimento… E precisaria da ajuda daquele humano para chegar em Flussevir…

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