Capítulo 3 – Oração aos Mortos (Parte 2)


As horas se passam sem que nenhum dos dois, nem humano nem sáurio, se movesse. O céu se escurecia, anunciando a chegada da noite. Um dia que nunca seria esquecido.

Lamark já não tinha mais lágrimas para chorar, embora tristeza e raiva ainda estejam tão fortes quanto nunca.

Ainda tinha um dever a cumprir: sepultar os mortos.

Sabia que nunca conseguiria seus corpos para realizar o ritual da maneira apropriada. No entanto, também não poderia deixá-los morrer sem uma homenagem e uma oração! Eram todos heróis! Não poderiam ficar sem as devidas honras.

Enquanto isso, Meltse ainda tentava digerir o que tinha acontecido… Tudo mudou de forma tão abrupta… Sentia raiva de si mesmo por não ter feito nada! Nem a própria vida conseguiu salvar!!! Se aquele sáurio não o tivesse puxado para fora da gaiola… estaria agora mesmo morto.

Sempre achou estar preparado… Mas aquele episódio tinha mostrado a Meltse, de forma muito cruel, o quanto a realidade diferia do treino. Tinha paralisado de medo! Não conseguiu pensar. Sequer esboçou reação.

Era um inútil.

Lamark se levanta, com calma. Com olhar resoluto, ele retira de seu cinto uma adaga. Encara a árvore a sua frente com solenidade.

Era uma árvore grande, já de muitos anos. Lembrava a Lamark de outra que resistia, eterna, em frente a Flussevir.

Respira fundo…

“Hoje eu celebro a morte de heróis. Que seus nome sejam gravados na rocha para serem eternamente lembrados. Nunca esquecidos”

O sáurio sabia que não estava fazendo o ritual de forma adequada, mas não dispunha de nada no momento. Esperava que os deuses o perdoassem por sua negligência, já que a situação era extrema. Continua…

“Tork Grischarr. Guerreiro honrado. Forte como um touro. Habilidoso, mestre de luta e machado. Braço direito de Hamur Grischarr, o modesto. Serviu por anos ao seu clã com bravura. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como um herói.”

“Rak Grischarr. Guerreiro valente. Sábio como um dragão. Era… o mais antigo de todos os guerreiros vivos…Conselheiro de Hamur Grischarr. Serviu por décadas como treinador e mestre de armas. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como um herói.”

“Asgasch Grischarr. Guerreiro astuto e sagaz. Ágil e certeiro como um falcão. Companheiro de armas de Lamark Grischarr por um ano. Suas habilidades foram muito apreciadas por seus companheiros e seu clã. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como um herói.”

“Edra Grischarr. Guerreira destemida. Valente e altiva como um cavalo. O melhor de todos os guerreiros em manuseio de espada e machado. Companheira de armas de Lamark Grischarr por seis meses. Sua lâmina foi de grande valia para seus companheiros de armas e seu clã. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como uma heroína.”

“Rith Grischarr. Guerreiro prudente. Calmo, mas certeiro, como uma cobra. Sempre capaz de discernir o melhor momento para atacar e para recuar. Companheiro de armas de Lamark Grischarr por nove meses. Seus serviços foram de grande monta para seus companheiros e seu clã. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como um herói.”

“Zach Yagnarr. Caçador atento e perspicaz. Possuía visão de uma águia. Um jovem prodígio entre os caçadores de Flussevir. Companheiro de armas de Lamark Grischarr por cinco meses. Seu olhar atento foi de grande ajuda a seus companheiros. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como um herói.”

“Lara Agniarr. Xamã sagaz. Xamã sagaz. Inquieta como uma doninha. Especialista nas artes de defesa e suporte. Companheira de armas de Lamark Grischarr por um ano e dois meses. Suas artes já salvaram incontáveis vezes as vidas de seus companheiros. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como uma heroína.”

“Shaha Agniarr. Xamã sábio. Imutável como uma tartaruga. O melhor de todos os xamãs nas artes de cura. Companheiro de armas de Lamark Grischarr por um ano e dois meses. Suas artes fecharam as feridas de seus companheiros. No dia de hoje, o quinto dia do mês do sol do ano de 937, morreu como um herói.”

Lamark respira fundo. Observa os nomes que gravou na árvore. Todos com quem teve um relacionamento estritamente militar; o que não significava que eram menos importantes ou que seriam mais facilmente esquecidos…

Sorri. Tinha quebrado mais uma das regras… Mas o último nome tinha que ser o mais importante para ele. Se os deuses não concordassem? Azar!

“E Henkel Trammfarr. Guardião resoluto. Sempre pronto para defender os seus, como um lobo a sua alcateia. Exímio na arte da luta com escudo e lança. Guardião e protetor de Lamark Grischarr desde o nascimento, companheiro de armas por uma vida. Seu escudo sempre a postos, já salvou a vida de seu protegido e seus companheiros incontáveis vezes. No dia de hoje. O quinto dia do mês do sol. No ano de 937… Morreu como um herói.”

Estava feito… Os nomes gravados na árvore. Teria de ser tão eterno quanto a rocha… Ou era o que Lamark esperava.

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