Capítulo 3 – Oração aos Mortos (Parte 1)


Lamark desliga todos os sentidos, focando numa única palavra: sobreviver! Só assim ele conseguiria cumprir sua promessa com seus companheiros de armas…

Deveria ter ficado! Mas… Assim a morte deles seria em vão… Doía muito no jovem sáurio agir daquela maneira… covarde? Não, não era covarde. No fundo sabia que era a única coisa sensata a fazer…

Invejava sua montaria. Ela não tinha problema nenhum em fugir. Tudo o que Lamark queria naquele momento era pensar tão simples quanto seu animal. Fugir sem sentir remorso, ou arrependimento.

“Ao menos consegui salvar alguém…”

O humano a suas costas tinha desmaiado poucos segundos após iniciada a fuga. Nem conseguia imaginar como o pobre coitado não tinha caído na corrida intempestiva de uma montaria aterrorizada.

Meltse então acorda, desnorteado e com uma dor de cabeça terrível. Ele demora um tempo para perceber onde estava. Confuso, sentia um vento forte arrastar seu cabelo para trás, solto.

Estava na garupa de um cavalo. E a sua frente, o cavaleiro com seu corselete de couro. Só que não era um cavalo, nem o cavaleiro humano.

Logo a lembrança o atinge como um martelo: estavam todos mortos; e um sáurio o tirara de um pesadelo real. Quem era aquele exército maldito que matava qualquer um indiscriminadamente? Por que aquele sáurio voltou só para salvá-lo?

Talvez quem estava a sua frente soubesse as respostas. Mas estava tão concentrado e alheio ao seu redor que de nada adiantaria chamar a sua atenção. Teria de esperar a montaria parar.

Lamark se dá ao luxo de finalmente respirar. Aparentemente o humano havia recobrado a consciência. E sua montaria demonstrava sinais de cansaço extremo. Tinha que parar, ou o pobre animal morreria de exaustão.

Lentamente ele comanda o animal a desacelerar. Finalmente param. Meltse apenas despenca no chão, sem pensar em mais nada. Lamark desmonta calmamente, para então guiar seu animal até uma árvore próxima, amarrando-o.

O sáurio olha para o humano caído no chão. Estava vivo. Abalado, talvez machucado, mas vivo.

Sua mente racional sabia que aquilo por si só era um milagre: ninguém sobrevivia a um ataque daquele exército. E ali estava não um, mais dois sobreviventes!

No entanto, seu emocional…

Meltse, no chão, observa o céu, procurando respostas. Uma luz avermelhada trespassava a copa das árvores. Então eles tinham cavalgado por umas boas horas, hein?

Um lampejo de memória o ataca, mostrando imagens disformes do pesadelo que deixou para trás.

Lamark avança subitamente em direção a uma árvore, socando-a com toda a força que tinha. Estava zangado, irritado, nervoso. E irremediavelmente triste. Rosnava.

Meltse apenas observa. Sabia exatamente como aquele sáurio se sentia. Sim… O pesadelo foi igual para ambos. Afinal… Os outros sáurios eram tão importantes para aquele ali quanto os humanos eram para si mesmo.

Lamark lentamente se ajoelha, de frente para a árvore. Odiava a si mesmo. Era fraco demais para fazer qualquer coisa! Teve de ser convencido pelo seu subordinado a fazer o certo! Mas fugir era realmente o certo?! Deveria ter ficado! Forçado todos a fugirem. Ele arrumaria um jeito de segurar o exército!

“Claro que não, Lamark. Você é fraco demais para isso! Ainda…”

Ajoelhado, os braços inertes pendendo de cada lado do corpo, o sáurio começa a chorar. Enquanto isso, deitado, arrasado, o humano não conseguia derramar uma lágrima sequer.

Ambos com uma enorme ferida aberta no coração. E o horror de perder pessoas queridas daquela maneira.

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