Capítulo 2 – O Auspício da Floresta (Parte 2)


Seire passa um bom tempo em seu banho. Sentia-se imunda, precisava tirar toda aquela sujeira, tanto física quanto psicológica de sim. Teria de viver com o fato ser um monstro, algo repudiado por sua crença. Ainda não sabia como suportaria isso…

Finalmente terminado o banho, limpa de corpo e mente, ela experimenta as roupas que pegou emprestado de Raffleia. “Terei que arranjar roupas próprias logo…” Elas ficaram um pouco grandes: mesmo pequena, a sáuria ainda era maior que Seire. Pelo menos eram confortáveis. Vestida e lavada, decide voltar para onde estavam Arth e os outros.

Chegando lá, percebe que a Raffleia já estava acordada, enquanto o estranho prisioneiro ainda dormia. Ao se aproximar, a sáuria sorri:

— Vejo que estás bem disposta, senhorita.

Seire apenas sorri de volta: a conhecia a muito pouco tempo, mas por algum motivo se sentia ligada a estranha réptil. Seus pensamentos são interrompidos por uma súbita fome que surge em seu estômago. A quanto tempo mesmo que não comia? Não fazia a menor ideia… A destruição do monastério parecia algo de milênios atrás…

Raffleia cutuca o prisioneiro dorminhoco, que acorda assustado e indisposto. Tinha se esquecido que estava entre monstros. Estava tão exausto quanto Seire faminta. Ele não estava nem um pouco feliz com o súbito despertar, muito menos com a decisão idiota que tinha tomado.

— Hum hum… Creio que iremos viajar juntos por um tempo — inicia Raffleia — Por isso, deveríamos nos apresentarmos de maneira apropriada. Sou Raffleia Agniarr, uma xamã numa jornada por conhecimento. Sou uma sáuria.

— Meu nome é Arth. — fala o centauro — Guerreiro em desonra a procura de algo muito importante. Um centauro eu sou. E provavelmente o único…

Seire hesita. Foram poucas as palavras do centauro, no entanto elas carregavam uma tristeza e um sentimento de solidão tão grandes que a garota lobo teve que se conter para não se lembrar de sua própria situação e começar a chorar ali mesmo. Respira fundo e engole seco. Era sua vez:

— Seire. Sou aprendiz de clériga no monastério de Néphise. No antigo… monastério. Que não existe mais. E… também um monstro… — fala, desconfortável. Preferia nem ter que dizer nada.

Todos se viram para Hafix, a quem ninguém ali sabia o nome. Ele se sente subitamente acuado. Não estava gostando daquilo, mas tinha que falar alguma coisa, não é verdade? “Mas que ideia, heim?”

— Meus pais me batizaram como Hafix. Hafix Trommadar. Sou um estudioso… Eu… gosto de descobrir como o mundo funciona. E não acredito em deuses nem em seus supostos poderes.

Queria causar choque e desconforto nas duas crentes, trazer a tona quem elas verdadeiramente eram por trás da máscara de bondade. Não bastavam serem criaturas hediondas, também tinham que ser da igreja? No entanto, não conseguiu mais do que um dar de ombros de Raffleia. Seire apenas ouve como se já soubesse de tudo e não se importasse.

“Arrrrrrrrrg! Essas gurias poderiam agir um pouco mais ofendidas! Não tem como elas serem assim tão… compreensivas! Fui preso por gente como elas por muito menos! Eu deveria parar de hostilizá-las tanto…”

— Agora que estamos apresentados — explica Arth — podemos seguir. Creio que todos estejam famintos agora. Arranjaremos comida, mas não agora.

Hafix e Seire ficam confusos. Estavam tão famintos que até formigas e grama comeriam sem pestanejar. “Por que não podemos comer agora?” Percebendo a confusão nos olhos de ambos, Raffleia continua a explicar:

— Não podemos caçar ou comer nada desta floresta. Faz-se necessário uma permissão.

“De quem?”, se perguntam.

Arth apenas começa a caminhar, sem mais nada a dizer. Raffleia sobe em Silf e o acompanha. Seire e Hafix não vêm outra escolha senão segui-los.

Com o que os dois tinham dito, Seire fica mais atenta. Pelo que entendeu, aquela floresta tinha dono. Logo sente olhares perscrutadores os observando e ouve o farfalhar suave nas folhas das árvores: não era o vento. Entretanto não consegue identificar nenhum cheiro além do das próprias árvores. “Agora não sentir o cheiro das coisas é o estranho…”

Os quatro caminham lentamente, seguindo o curso do riacho, por um bom tempo. O que era demais para Hafix: apesar da água e do curto descanso, a caminhada anterior o tinha drenado perigosamente. Ele tinha plena consciência de que iria desmaiar a qualquer momento. No entanto não queria pedir ajuda àqueles… monstros!

Ele sequer entendia porque tinha decidido segui-los. Sabia que era uma péssima ideia! Mas instintos de sobrevivência falaram mais alto e ali estava ele: a salvo, em um grupo. E faminto.

O centauro finalmente para, interrompendo os pensamentos de Hafix. Este levanta o olhar para saber onde estavam. Deveria ser algum lugar imundo onde…

Era simplesmente a coisa mais linda que já tinha visto em toda a sua vida. Estavam de frente para árvores. Diferentes, eram muito maiores. Seu caule era de um branco inimaginável, quase ofuscante, e suas folhas, negras como piche. Acima delas… uma cidade. Construida em plataformas entre as árvores e até mesmo dentro delas. Tudo muito belo. Tudo muito selvagem.

— Chegamos a Fafalar, a cidade da luz na escuridão — fala Raffleia solene. E sorrindo.

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