Capítulo 2 – O Auspício da Floresta (Parte 1)


Arth, Seire e Silf caminham pela floresta, num passo nervoso e apressado, por horas a fio, enquanto Raffleia continuava a dormir, tranquila, em cima de sua montaria: roncava como um urso.

O centauro parecia não ter a menor intenção de parar, nem mesmo de diminuir o ritmo. Seire não entendia o porquê: não era como se estivessem sendo perseguidos. Mesmo assim, ela acompanha calada. Agora tinha resistência suficiente para fazer aquela caminhada sem sentir o menor cansaço. Se sentia estranha…

Seus sentidos estava melhorados também. Era capaz de ouvir e sentir o prisioneiro seguindo-os bem atrás, com dificuldades. Parecia completamente perdido e desnorteado. Afinal, estava seguindo monstros! Embora não cheirasse a medo.

Sabia que ele não aguentaria muito naquele ritmo, nem ela mesma entendia como estava suportando aquela caminhada pesada! Por isso decide ir na direção dele. Arth percebe o ato e para. Apenas observa a clériga, sem saber exatamente o que ela tinha em mente.

Enquanto isso Hafix, o prisioneiro, mantinha um ritmo insano para o seu porte físico, tentando seguir aquelas criaturas que o salvaram. Embora não soubesse exatamente porque o fazia, sabia que ficar sozinho na estrada, bem no meio do Reino do Norte, não era uma boa ideia.

Já estava quase desmaiando de exaustão quando se depara com a garota lobo o esperando. Nem se assusta mais. Sua vida já tinha mudado tanto na última semana que o fato de estar na companhia de criaturas inumanas era o de menos. Por fim, despenca de costas na relva macia. Não tinha mais forças para andar, nem para falar.

Ao ver o humano, Arth finalmente entende o motivo de Seire ter parado. Não poderia deixar aquele pobre coitado morrer no meio da floresta. Ele também não deixaria, se tivesse percebido o humano…

E assim o centauro para um pouco para pensar. Percebe que era um estúpido. Deveriam ter parado há muito tempo! Raffleia precisava de um descanso adequado e a garota estava em uma situação horrível quando a encontraram. Nem sabia como ela estava aguentando a caminhada!

— Eu… peço desculpas…  — começa Arth — Às vezes não percebo as coisas ao meu redor. Nem sei seu nome ainda e te forcei a andar por quilômetros! E no passo de um centauro! Você quase morreu a algumas horas atrás! Me desculpe. — termina, inclinando-se para frente no que parecia ser uma vênia.

Seire nada fala. Estava surpresa. O centauro estava preocupado com ela! Achava muito estranho, e engraçado, uma criatura grande, troncuda, de cara amarrada e tão gentil.

— Bem… Podemos começar de novo: meu nome é Seire. — fala, esboçando um sorriso.

— E o meu é Arth. Dama Raffleia já deve ter-lhe dito isso.

— Sim, ela disse. E, bem.. Talvez seja pedir muito, mas… preciso de um banho e uma muda de roupas. — explica, apontando para si — E nosso acompanhante exausto deve estar querendo água e comida.

Hafix, ainda deitado no chão, recuperando o fôlego, apenas balança a cabeça concordando.

— Conheço bem esta floresta. Estamos bem próximos a um rio. Resolve o banho e a água. Roupas… — pensa, com a mão no queixo — Acho que Dama Raffleia tem alguma sobrando. Não creio que ela se importe. Quanto a comida… Por enquanto nada. E não quero vê-los pegando qualquer coisa da floresta para comer! — adverte o centauro — Não seria sensato.

Seire e Hafix estranham a última frase de Arth, mas nada dizem. Não tinham o menor interesse de se meter em problemas. E assim acompanham o centauro por mais alguns minutos, até encontrarem um pequeno riacho.

Chegando lá, Arth gentilmente tira Raffleia do lombo de Silf e a coloca deitada no chão, em cima de uma boa e cheirosa cobertura de folhas secas. Enquanto isso Seire e Hafix bebem uma boa quantidade de água. Saciado, o prisioneiro deita no chão novamente e dorme quase que de imediato. Devia estar realmente muito cansado.

Seire mexe, insegura, na bolsa de Raffleia. Logo encontra uma muda de roupa. Não era exatamente o seu tamanho, mas serviria. “Agora só falta o banho”.

A clériga olha ao redor. Não queria se afastar do grupo, mas também não se sentia bem com os dois homens por perto. Arth percebe a indecisão da garota e apenas balança com a mão, acenando para ela ir.

“Talvez a floresta seja segura…” E se afasta, hesitante e temerosa, abraçada a muda de roupas. No entanto ela não precisou se afastar muito: logo encontra um lugar onde ninguém poderia vê-la.

Então Seire coloca as roupas que pegou de Raffleia em cima de uma pedra próxima para depois entrar no rio, lenta e cautelosamente.

Quando já estava toda coberta de água ela começa a tirar a roupa, rasgada, suja, ensanguentada e maltrapilha… Suas roupas sagradas… de nada mais serviam.

Lentamente ela vai se limpando. Lágrimas caem de seus olhos. Era a primeira vez que pôde finalmente parar e digerir tudo o que lhe aconteceu.

Todos que ela conhecia estavam mortos. Ela não tinha mais ninguém. E chora. Pelos mortos. Por sua sina. Chora por muito tempo. Até não ter mais o que chorar. Até secar os olhos.

Agora estava limpa, de corpo e alma. Sente-se muito melhor. O peito não mais doía. Entretanto permanecia uma dorzinha de cabeça incômoda. Seire a teria até o fim de seus dias…

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