Capítulo 2 – Salvação e Danação (Parte 4 – Final)


Seire já se sentia bem melhor, tinha quase certeza de que podia se levantar. Ouve os ruídos de uma luta. Deve ser Arth enfrentando os soldados. Não sabia se desejava sorte ao centauro ou não. Sua mente ainda não se acostumou com o fato de ser um monstro e que estava em companhia de outros…

Raffleia apenas acaricia sua estranha montaria, parecendo aguardar o desfecho da luta no outro lado da colina. Não havia sinais de preocupação em seu rosto reptiliano.

Seire tenta então se levantar, testar o próprio corpo. Consegue sem problemas, mas a dor de cabeça a ataca com força descomunal. Quase cai com a dor.

— Hum hum… Parece que a purificação não funcionou em sua completude. Vais ter que conviver com essa dor de cabeça para o resto da tua existência. Desculpe-me, não pude fazer melhor — lamenta Raffleia.

O silêncio paira na estrada. A luta havia terminado.

— Vamos lá, meu amigo. Ajude-me a montá-lo. murmura Raffleia para sua montaria, que prontamente se deita sobre as quatro patas, como um gato. Mesmo assim ela monta com dificuldades. Aparentemente a magia de purificação que utilizou drenou toda sua energia.

Com Raffleia segura e bem montada, a criatura se levanta gentilmente e começa a caminhar na direção que Arth havia seguido. Seire a acompanha em silencio.

Demoram um pouco para chegar no centauro devido a suas condições físicas. Ao subirem a colina, encontram Arth em pé, parado, como uma estátua. Tinha cortes e várias flechas cravadas por todo o corpo. Raffleia se apressa: ele estava numa situação horrível.

Seire olha ao redor. Percebe vários soldados próximos caídos, inconscientes ou mortos. Não sabia dizer. Era incrível aquele centauro ter lutado contra tantos e `ganhado’.

Ela esquece Arth por alguns instantes para verificar como estavam os caídos: todos vivos, inconscientes, com alguns ossos quebrados, mas definitivamente vivos.

Havia uma carroça mais abaixo, solitária. Seire vê uma pessoa dentro, presa. Fica imaginando o que teria feito aquela pessoa para ter uma escolta tão grande.

Enquanto Raffleia começa a cuidar dos ferimentos de Arth, tanto com bandagens e ervas quanto com palavras de cura, Seire decide investigar a carroça mais de perto.

Ela estava como que abandonada. Ou todos os soldados foram realmente derrotados por Arth ou alguns fugiram.

O prisioneiro a encara assustado. Não sem motivos, afinal ela estava acompanhada de monstros, suas roupas cobertas de sangue e rasgadas. Ou então foi a luta do centauro que o surpreendeu…

— Ei, ei! — fala o prisioneiro, um tanto em pânico — Vocês vão me matar, não vão? — Seire suspira:

— Não, não vamos. O centauro ali aparentemente tem votos para não matar. Eu e Raffleia, aquela réptil que veio comigo — aponta para os dois monstros mais atrás — somos clérigas, eu acho… Nossa missão é salvar, não matar.

O prisioneiro respira aliviado. E irritado.

— Bah! Clérigos! Era só o que me faltava. Salvar, é? Foram vocês clérigos que me colocaram nesta gaiola!

Seire estranha aquilo. Que saiba clérigos nada mandavam nos assuntos seculares.

— Qual o motivo de estar preso? — pergunta, curiosa.

— Hah! Blasfêmia foi o que me disseram. Mas, na verdade, foi por motivo nenhum. Nem sei o que eu fiz ou falei para criar essa “blasfêmia”.

— Mas isso está errado! Clérigos não deveriam se envolver nesse tipo de coisa. A menos que você tenha de alguma forma profanado solo sagrado… — para de repente. As dores de cabeça pioram e flashes de memória surgem na mente de Seire. O calor doentio e o cheiro rançoso e adocicado voltam aos sentidos e ela quase apaga. Sua vista turva por alguns instantes.

Quando ela volta a si, percebe que o prisioneiro estava muito mais apavorado do que quando o abordou a alguns minutos. Seire novamente havia se transformado num lobisomem. Sons e cheiros pareciam intensificados: conseguia ouvir pequenos roedores se mover abaixo do solo e o cheiro do sangue a metros de distância parecia vir de dentro de suas narinas.

Seire olha novamente para o prisioneiro. Sente o cheiro de medo e nada mais. Era estranho… Ter a certeza de que aquele homem não era mal apenas pelo cheiro. Seus novos instintos dizem que ele é verdadeiramente uma boa pessoa. E assim decide arrancar as grades que o prendem. Ato que foi muito simples, pois sua transformação também lhe dava uma força descomunal.

O prisioneiro fica confuso: estava agora cercado de monstros, mas nenhum deles parecia lhe querer o mal. Quando a jovem aparentemente humana que o abordou se transformou numa besta de três metros ele teve a certeza da morte. Porém ela apenas destruiu a gaiola que o prendia e se afastou.

Agora Seire queria voltar ao normal. Mas não fazia ideia de como. “Se memórias ruins me transformam num monstro… talvez boas lembranças revertam o processo” Ela não conseguia pensar em nada de bom naquele momento. Ao respirar fundo e começar a meditar, ela consegue voltar ao normal.

— Eu devia ter desconfiado de que você também era uma aberração! — dispara o prisioneiro, nervoso — Com as roupas todas cheias de sangue! Nada de bom poderia ser!!!

— Sinto muito… Sim. Sou um monstro. — suspira — Mas há apenas um dia… ou dois. E eu acho que os monstros aqui o salvaram. Então você deveria agradecer e não apontar o dedo! — Seire, zangada, se afasta, indo em direção a Raffleia e Arth.

Os ferimentos do centauro estavam quase todos fechados. Raffleia parece cochilar em cima de sua montaria. Deve ter sido exaustivo usar tantas magias de uma vez.

— Estou pior do que pensava. — murmura Arth — Deveria ter tentado evitar as flechas. Doem quando acertam, e mais ainda quando saem…

— Bem, vejo que ainda faltam três. E Raffleia está cansada demais… Creio… creio que posso ajudar um pouco. — fala Seire enquanto começa a retirar a primeira flecha.

Não podia simplesmente puxá-las, isso faria as feridas ficarem muito piores de se tratar. Tem-se que empurrá-las para que saiam no outro lado; o que ocasiona um ferimento mais profundo, embora menor.

Seire tinha conhecimento em magias básicas de cura, o suficiente para ferimentos de flecha. Entretanto, ao recitar as palavras que invocam o auxílio de Néphise ela sente resistência. De alguma forma consegue terminar a magia com sucesso, mas aquilo a preocupa: nem quando estava aprendendo ela sentira aquele tipo de resistência…

Teria de pensar naquilo depois. Tinham que sair da estrada, ou mais problemas certamente viriam. Arth concorda enquanto Raffleia apenas dormia. Os três saem lentamente da estrada, floresta adentro, com o centauro guiando o caminho e Seire puxando a montaria de Raffleia. O prisioneiro, sem saber o que fazer, decide segui-los a uma certa distância.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s