Capítulo 2 – Salvação e Danação (Parte 1)


Seire acorda subitamente. Não tinha lembranças de ter desmaiado. Pelo menos ainda não estava morta: sente as dores dos ferimentos cortando como navalhas. Lembra vagamente de ter tentado curá-las, sem sucesso.

Ela pisca. Acha estar sonhando. Via um rosto reptiliano a observando com… apreensão? Sabia da existência de diversas raças pelo mundo. Muitos visitavam o monastério de Néphise. Mas não lembra de ter ouvido falar em répteis…

— Como estás? — pergunta o réptil, com voz feminina. Seire tenta responder, mas som algum sai de sua garganta — Hum… Teus ferimentos são deveras agravados. Não sei se sou capaz de curar-te.

“Certo. Esse monstro sabe falar…E parece saber o idioma comum de Hamalafar. Bem, eu sou um monstro também, ora! Nem por isso deixo de ser clériga de Néphise!!!”

— Vejamos… Mestre Diamante me ensinou curas para corrupção e mal. Nunca pude utilizá-las pois nunca vi criatura alguma ser capaz de causar corrupção. Minha querida… Isto vai doer-te.

O estranho réptil começa então a murmurar palavras estranhas. Seire nada consegue entender. Mas sentir?! Pela Deusa! Isto é magia de cura! E de alto nível?! Mas… As dores começam a piorar muito, como o monstro havia alertado.

Seire entra em desespero. Parecia recordar um pouco o que aconteceu no monastério. Criaturas negras, viscosas, disformes, mordiam-lhe o corpo e corroíam sua mente. Eram tantas! E atacaram a todos no templo. Com isso ela desmaia novamente, não sem antes ver um líquido doentio sair de suas feridas. Assim cai em sono profundo, cheio de pesadelos.

— Senhorita. Consegues me ouvir? — Seire ouve uma voz, distante e efêmera. — Senhorita! — alguém está chacoalhando seu ombro — Por favor acorde, senhorita!

Seire então acorda por fim. O mesmo réptil ainda estava a encará-la, preocupada.

— Senhorita, quase a perdi. Como te sentes? Melhor?

— Sim… — consegue por fim falar — Agora estou muito melhor. O que fez comigo? Por acaso seria também uma clériga?

— Não sei responder-te a pergunta. Sou uma xamã, como dizes no teu idioma. Chamo-me Raffleia Agniarr. Cuido dos doentes e feridos.

— Hmmm… — Seire fica pensativa — Eu perguntei porque senti magia clerical nas suas palavras, antes de desmaiar. E era uma de alto nível.

— Hum hum… Deve ser mesmo. Quem ensinou-me tudo sobre as artes da cura foi meu mestre o Gigas Diamante. Tu conheces artes parecidas?

— Bem. Eu posso curar pequenos ferimentos e detectar doenças. Mas nada na magnitude que você fez. São magias destinadas às valquírias, o mais alto posto para clérigos de Néphise. Montadas em seus cavalos brancos elas percorrem o mundo, trazendo paz e harmonia.

— Hum hum… Néphise parece ser uma deusa interessante. Sigo Regigleph, Deus Sol, assim como meu mestre. Talvez eu seja uma… ‘clériga’. Nunca ouvi tal palavra antes. O que meu povo chama de agni o teu chamas xamã… Hum… Pouco importa agora. Precisas descansar, e também de roupas novas, limpas. As tuas estão rasgadas e cheias de sangue e corrupção. Consegues te levantar? Creio não estarmos seguras aqui.

— Não… não consigo ainda…

Seire ouve o tropel de um cavalo se aproximando. Provavelmente ainda estava na estrada. Ela tinha caminhado até a estrada? Sim… lembra vagamente de delirar fugindo do monastério… Talvez quem vinha fosse uma boa pessoa e a ajudasse? Pouco provável… Ninguém ali no norte ajudaria monstro algum!

O horror toma de conta quando o suposto cavaleiro chega até onde estava deitada: era um centauro! Nunca tinha visto um antes, mas as histórias que contavam eram horrendas. Ladrões, assassinos, sequestradores! Não! Era o pior que podia aparecer!!!

— Dama Raffleia, temos problemas — fala o centauro, fria mas respeitosamente. “Será que minha benfeitora conhecia aquela criatura maligna?” — Um comboio está vindo pela estrada. São pelo menos quinze soldados a cavalo e uma carruagem.

— Meu caro amigo. Estas são as piores notícias que poderias me dizer neste momento. Estou exausta e a senhorita aqui não está ainda em condições de se levantar. Quanto tempo ainda nos resta?

— Eles devem chegar em uns dez minutos no máximo…

— Hum hum… — e Raffleia nada diz.

Ao ouvir sobre o comboio, Seire fica mais aliviada por um momento. Se for o comboio de algum dos feudos próximos, a levariam em segurança para uma cidade qualquer; onde seria tratada e se recuperaria.

Tinha que descobrir principalmente três coisas: o que eram aquelas criaturas negras que atacaram o monastério; quem era e quais eram as intenções daquele demônio de fogo; e o que ela mesma era.

Sabia que seus pais havia abandonado-a no monastério: era apenas mais um dos órfãos que tiveram o mesmo destino. O portão da morte deve ter despertado o monstro que era… Mas nunca ouviu falar de meio-lobo-meio-homem antes.

Enquanto Seire se perde em pensamentos, o centauro permanece encarando Raffleia, esperando uma resposta:

— E então, dama Raffleia, o que faremos? — pergunta já impaciente e nervoso.

— Hum hum… Esperamos. Nada mais. — olha ao redor, percebendo a grande quantidade de sangue que havia na estrada. Péssimas noticias. — Os soldados irão investir… creio. Melhor nos prepararmos. Traga-me meu Silf, por favor. Acho que terás de fazer o que sabe melhor, caro amigo.

O centauro sai de vista por alguns instantes para então voltar pouco mais de um minuto depois. Trazia consigo uma estranha criatura: parecia um cavalo, mas seu corpo era coberto por escamas, algumas cinza outras brancas, formando um estranho padrão nebuloso. Tinha arreios e sela, obviamente uma montaria. Raffleia pega os arreios com calma e começa a afagar o animal. Faltam cinco minutos até a chegada do comboio.

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