Capítulo 1 – Últimas Palavras: Martha Metzgar


Desde o começo da viagem Martha prefere ficar calada, observando. Ela tinha se apegado muito facilmente àquelas criaturas que poucos dias antes havia incendiado sua vila.

Ela sentia os olhares de estranheza. Ficaria quieta. Tentar convencê-los de qualquer coisa só pioraria tudo. O fato é que ela via os sáurios apenas como “gente de outro lugar”. Modos, costumes e idioma podiam diferir, mas todos tinham as mesmas necessidades, os mesmos pensamentos e emoções.

Ela lembra bem de um fato ocorrido ainda dentro da caverna: as crianças sáurias comentando felizes que não iriam passar fome esse ano. No fim, o terrível saque era para alimentá-las! E Martha não conseguia negar que faria o mesmo para alimentar as crianças de Hochberg se fosse a única solução…

Ela também pode ver sinceridade nos olhos do líder do saque ao vê-lo se desculpar por tudo. Entretanto não teve coragem de perdoá-lo na frente dos outros…

Agora estavam na estrada. Um alívio depois do dia anterior chacoalhando numa trilha na floresta.

Lembra-se de outra coisa que ocorreu no dia anterior: um belo e verdadeiro milagre. Um sáurio, mudo, cantando sua música silenciosa, que trazia a cura e a paz. Ferimentos se fecharam instantaneamente e o cansaço simplesmente sumiu.

A viagem agora estava confortável, mas não mais divertida. Os sáurios estavam tensos, preocupados… É verdade que uma patrulha ali seria ruim para eles, mas não seria mais do que apenas um incomodo.

É assim, compenetrada e observadora que ela percebe a ruína chegar bem antes de todos. Martha sempre foi muito boa em perceber as emoções dos outros. E com aqueles sáurios não era muito diferente. É verdade que todos eles estavam nervosos. Mas um estava bem mais.

Lembrava vagamente seu nome: Zack, ou Zath, algo do tipo. Martha observa ele subitamente parar, desconfiado. Olha para os lados, a procura de algo. Mas desiste, balança negativamente a cabeça e segue normalmente.

O coração de Martha aperta. Teve a premonição de que o sáurio não tinha apenas ouvido coisas. Então ela vê uma figura negra entre as árvores, na borda da estrada.

Seus olhos se encontram. Se encaram por alguns segundos. A figura então some no meio da floresta. Martha fica estranhamente calma, como se todas as incertezas tivessem sido respondidas.

Era simples: todos iriam morrer naquele dia. A certeza que sente é tão forte que a assusta.

Um alvoroço surge entre os sáurios. O mesmo Zack havia ouvido alguma coisa. Não conseguia saber o que, pois falavam todos nervosos, em sáurio.

Óbvio que algo se aproximava. Eles decidem parar e esperar por quem quer que viesse pela estrada. Enquanto isso, Martha queria gritar FUJAM FUJAM mas estava muda. Não conseguia falar…

Enquanto isso os outros comemoravam em silêncio. Achavam que seria uma patrulha para libertá-los. Não sabiam como estavam enganados.

Então a morte aparece. Veio na forma de um soldado fortemente equipado, portanto um estandarte que trazia mal agouro.

Martha nunca tinha visto aquele brasão antes, mas sente que era o símbolo da morte e atrocidade. Ela percebe o cavaleiro iniciar uma investida e parar antes mesmo de seu cavalo dar dois passos. Ele queria avançar sozinho! Entretanto, apenas deu meia volta, como um bom batedor.

Não demora muito para se ouvir cavalos vindo do outro lado da estrada: estavam emboscados.

Martha vê os cavaleiros avançarem numa velocidade alucinante. Os únicos a reagir a tempo foram três sáurios: o líder, seu protetor e seu inimigo.

Era óbvio e intuitivo para Martha que todos queriam que o líder saísse vivo dali. A ideia era que eles segurariam aqueles cavaleiros e morreriam fazendo isso. E se não o fizessem… Todos morreriam.

Os humanos exultam por alguns segundos. Até que a primeira espada atravessa o corpo de Zepelli bem no coração. Foi morte instantânea. Logo em seguida Martha vê Meltse sendo puxado pelo canto dos olhos. Outra espada atravessa Ralph na barriga.

Um verdadeiro enxame de golpes atinge a todos. Rachel se mete entre seu irmão e os atacantes. Termina por perder os dois braços e ter o crânio aberto. Colodi entra em pânico.

Os outros também não estavam muito sãos. Só Martha mantinha alguma calma. Marco é atingido na perna e leva algumas espetadas mortais no tronco. Teria uma morte dolorosa.

O primeiro golpe a atingir Martha chega ao seu ombro esquerdo, abrindo-se em um corte que chegava até os pulmões. Nas árvores ela vê novamente a estranha figura negra. Apontava para o único sáurio ileso no meio daquela carnificina.

Os golpes cessam. Alguém tinha abatido os soldados que atacavam a carroça. Vivos só Colodi, que sofreu apenas alguns cortes superficiais e Martha que não tinha mais do que minutos de vida. Havia uma espada fincada no rosto de Marco.

Nada disso importa a Martha, no entanto. Ela observa fixamente a sáuria ilesa. Não morreriam pela mão daquele exército de abominações. Aquela sáuria acabaria com todos.

Ouve-se o barulho do exército se aproximar em alta velocidade. Precisavam mesmo de um exército inteiro para esmagá-los? Não. Mas aqueles soldados eram insanos e atrozes.

Cairiam numa armadilha. Martha observa a lança avançar sobre aquela pobre criatura, que realiza um milagre…

“A morte é agora”

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