Capítulo 1 – A Caminho do Paraíso (Parte 3)


Bem cedo, antes de amanhecer, o comboio parte, sem pressa: estavam já na metade do caminho. Os humanos acordam com o sacolejar da carroça, atordoados. Os sáurios já não estavam mais tão despreocupados como antes. Preparavam-se para sair da trilha e seguir pela estrada.

Nenhum deles gostava daquela ideia de seguir pela estrada, no entanto era isso ou atravessar a mata fechada.

A preocupação e os nervos dos sáurios era visível. E assim os humanos começam a ficar apreensivos também. Percebendo isso, um dos sáurios se aproxima da carroça:

— Não se preocupem. Estamos aqui para defendê-los também. — E sai, tão repentinamente quanto chegou.

“Com o que os sáurios estavam tão preocupados? Patrulheiros? Talvez… Mas por que eles precisavam ser defendidos?”, pensa Meltse. “Será que haviam bandidos naquela estrada? Mas os próprios sáurios não eram saqueadores?” Meltse fica preocupado. Enquanto isso os outros também estavam tão confusos quanto o jovem ferreiro.

O dia segue tenso. O sol forte deixa todos abatidos. Era bem diferente do clima do dia anterior…

Ao meio dia, o caçador Zach ouve alguma coisa. Estava distante, mas parecia com o tropel de cavalos. Passa um bom tempo imaginando que tinha ouvido coisas. As horas passam devagar. Até que ele ouve novamente o som de cascos, vindo de trás do comboio. Embora agora parecesse ser apenas um cavalo, e não vários…

Decide por fim avisar Lamark. Os humanos vêm a movimentação do sáurio com receio. Mas, se fosse uma patrulha mesmo, não estariam eles salvos?

— Senhor. Eu acredito ter ouvido um cavalo atrás de nós. — reporta Zach.

— Tem certeza?

— Infelizmente sim…

— Bem… Se é apenas um cavalo, então não será problema nenhum. Pode até mesmo ser um visitante. — Lamark então ordena que o comboio pare. — Atenção todos! Parece que temos um cavaleiro na estrada atrás de nós! Aguardaremos aqui. Se for amigo, poderá seguir conosco. Se não o for, ele não iria enfrentar a tantos sáurios sozinho.

Todos balançam afirmativamente a cabeça. Não era comum de se encontrar humanos ali. O mais provável é que fosse um dos esporádicos visitantes de Flussevir. Ou mesmo outro sáurio.

Aguardaram, nervosos e apreensivos. Havia a chance de ser um batedor de um exército. Embora tão perto assim da capital eles nunca tinham sido vistos.

Todos os sáurios estavam agora atrás do comboio, esperando quem quer que viesse pela estrada. Os humanos não sabiam o que pensar. Seria aquilo sua salvação? Ou os sáurios estavam certos e apenas coisa ruim viria dali?

Os minutos passam se arrastando. Até que finalmente a figura aparece: um cavaleiro equipado, com espada e armadura pesada. Humano. Carregava um estandarte. Ao ver o grupo de sáurios, ele volta pela estrada a galope.

Lamark estava em estado de choque. O barulho dos cascos do cavalo ressoam em seus ouvidos. Nada poderia ser pior do que o que acabou de ver…

Aquele cavaleiro era um batedor, ou seja, havia um exército nas proximidades. Também não era qualquer exército! Aquele estandarte… Aquela bandeira… Aquele símbolo… Aparecia sempre nos piores pesadelos do jovem líder…

Os outros sáurios também conheciam muito bem o símbolo: um cão negro num fundo vermelho, com duas espadas sobre o cão. Prontamente todos entraram em formação na parte de trás do comboio.: seria de onde o exército viria.

Lamark então sai do choque. Vendo que ninguém se preparava para fugir, seu coração dispara. A vida de todos ali eram sua responsabilidade. Sem pestanejar, ordena:

— Todos estão livres de seus deveres a partir de agora! — grita a plenos pulmões. Já não mais se importava se alguém do exército humano o ouviria. — FUJAM! Saiam daqui a toda velocidade!!!

Nenhum deles move um músculo. Observam, impassíveis o horizonte, a espera do exército. Todos tinham um olhar muito solene e sério, principalmente Tork, afinal pagaria sua dívida ali.

Os humanos vêm a reação dos sáurios em assombro. O líder parecia muito nervoso e assustado, enquanto os outros sequer se mexiam. Não deveriam estar fugindo?

— Por que não me ouvem?! — berra Lamark, em desespero incomensurável.

— Senhor. Fomos liberados dos nossos deveres. — responde Henkel, calmamente — Não temos mais que obedecê-lo, não é verdade? — e sorri.

— Também não precisa mais me proteger…

— Não. Mas é o que vou fazer com muito orgulho. Viva por nós, Lamark Grischarr, filho de Hamur Grischarr, discípulo do grande Gigas Diamante e do poderoso Alexsander, Aquele Que Vê O Longe, Líder do clã Grischarr. Lembre-se de nós.

Henkel é interrompido pelo barulho de cavalos vindo estrada a frente. Estavam emboscados. Todos, humanos e sáurios viram-se rapidamente. Dez cavaleiros se aproximavam num galope intenso. Chegariam em poucos segundos.

— Vá, seu tolo! Vá! — grita Rak, indo para cima de Lamark.

O líder sáurio não tinha outra opção: agora tinha a obrigação de sobreviver, se não o sacrifício dos outros seria em vão. Inconscientemente sabia que não haveria sobreviventes se todos tentassem fugir: não havia escapatória daquele exército em questão.

Os humanos inicialmente exultam de felicidade ao verem os cavaleiros, porém a preocupação e o nervosismo dos sáurios também os afetavam, tirando-lhes a certeza do resgate.

Lamark decide, com muito pesar, fugir. Começa seu galope floresta adentro. Entretanto havia se esquecido de algo muito importante no nervosismo: os humanos!

Os cavaleiros estavam praticamente em cima do comboio. Lamark retorna, meio ensandecido. Abre a gaiola e rapidamente puxa um humano, sortudo, para sua montaria. Pelo menos um deles ele salvaria!

Ouve o clangor de uma espada atrás de si. Não tinha tempo nem coragem para olhar para trás. Sabia perfeitamente que o escudo de Henkel o salvou. Parte em disparada floresta adentro, surdo e cego. Sobreviver era tudo o que importava.

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