Capítulo 1 – O Covil dos Sáurios (Parte 4 – Final)


“O que será que está acontecendo em Hochberg agora?” — pensa Meltse — “Provavelmente os outros já voltaram para a vila e a encontraram completamente destruída. Talvez tenham conseguido salvar alguma coisa… Pelo menos devem estar todos bem. Nem quero imaginar quando os caçadores voltarem e encontrarem apenas ruínas…” Algo interrompe seus pensamentos: havia um sáurio a sua frente oferecendo-lhe comida.

Ele aceita resignado. Estava com fome e aquilo tinha um cheiro bom. Parecia uma sopa, só que bem mais encorpada. E tinha um gosto que nunca havia sentido antes. Era bom!

Meltse pondera. Estavam sendo bem tratados considerando sua situação como prisioneiros. Era uma sensação estranha… O pouco que ouvia falar sobre sáurios era da violência dos saques… Bem, o saque que sofremos foi bem intenso, entretanto ninguém saiu machucado de verdade. Talvez não fossem assim tão maus… E saqueadores humanos agiriam mais ou menos da mesma forma, não é verdade? Poderiam até mesmo ser bem menos complacentes.

Enquanto isso, Martha se vê cercada por quatro dos sáurios pequenos. Aparentemente um bocado deles conseguia entender o idioma geral do Reino sem problemas: estavam ouvindo suas histórias com atenção. E ela tinha um monte para contar! Era um hobby para ela e se divertia muito fazendo isso.

Os outros estavam bem menos a vontade… Os feridos, Ralph, Colodi e Marco, estavam sendo tratados com zelo. Entretanto esta não poderia ser considerada uma situação boa, afinal de contas seus machucados se devem a um confronto com os mesmos sáurios.

No entanto, nada de ruim havia acontecido com todos até o momento. Rachel estava bem mais irritada que os outros por estarem amarrados: ela odiava aquilo. Zepelli, sempre em alerta, esperando apenas que aqueles sáurios mostrassem suas garras… Nunca confiaria naquelas criaturas escamadas. Todos queriam apenas sair o mais rápido possível dali, independente de como se sentiam.

Meltse respira fundo, deprimido. Não tinham como fugir naquele momento. E era tudo sua culpa também. Ou pelo menos era assim que ele mesmo achava. Não conseguia parar de pensar que poderia ter feito diferente, que poderia ter ficado com os arqueiros, que deveria ter percebido que os sáurios estavam preparados… Teria de pedir desculpas a todos quando eles conseguissem sair daquela enrascada. Tinha a pequena esperança de ser perdoado.

Estava tão absorto em pensamento, que não percebe a aproximação do líder do assentamento sáurio, junto de outro mais jovem, que parece muito com o líder do saque. Mas eram todos ali tão semelhantes que não conseguia ter certeza.

— Com licença, senhores e senhoras. — inicia Hamur — Eu tenho boas notícias. — pigarreia — Os senhores provavelmente não vão gostar de inicio, mas garanto que são boas notícias de verdade. Eu decidi que seria interessante levá-los para a capital enquanto não resolvemos nossos problemas. Considerem como uma viagem de férias. — E sai, sem dar tempo aos humanos perguntarem qualquer coisa. O outro sáurio fica, no entanto.

Meltse e os outros dão pouca importância ao sáurio mais jovem, que aparentava estar distraído demais em pensamentos, e começam a murmurar:

— Eu não entendi direito o que ele quis dizer. — comenta Ralph.

— Eles vão nos levar para Athos? — pergunta Colodi, incrédulo.

— Não faria o menor sentido. — responde Martha — Seria suicídio para eles. Sáurios não são tolerados no Reino.

— Talvez estejam falando de outra coisa e nós entendemos errado. — comenta Meltse.

O jovem sáurio é atraído pela conversa entre os humanos e sai do seu transe para esclarecer:

— Não! Vocês entenderam certo sim! Nós vamos levá-los até a capital. Lá tem alguém que pode muito bem mediar nosso problema. — interrompe Lamark, num idioma geral do Reino impecável.

— Mas não está falando de Athos, está? — Meltse toma coragem para perguntar.

— Não. Não. Nunca ouvi falar em Athos. Eu falo da grande capital sáuria, Flussewir, as Águas Eternas! — exclama — A cidade mais bonita que existe! — e se cala repentinamente. Percebe que os humanos não fazem a menor ideia do que ele está falando e fica envergonhado.

E assim um silêncio constrangedor se segue por um minuto inteiro… Ninguém sabia como acabar com aquilo, nem se atreviam a quebrar o silêncio. Talvez aquela fosse a chance de pedir desculpas por tudo o que fez, pensa o jovem sáurio.

— Bem… Eu… — fala o sáurio por fim, um pouco indeciso — Eu… gostaria de pedir desculpas. É culpa minha tudo o que aconteceu… — e se cala, apreensivo. Então ele era mesmo o líder do saque!

Meltse e os outros nada dizem. Mesmo percebendo que os sáurios não eram os monstros que as histórias pintavam, ainda se sentiam muito irritados com tudo. Não seria um mero pedido de desculpas que iria corrigir o ocorrido. O sáurio então sai, triste, sem uma resposta.


Lamark passa o resto do dia ocupado, organizando a viagem para a capital. Exultava de felicidade. Já fazia tanto tempo que não via a mãe e os irmãos!!! Ou mesmo seu mentor… Era difícil segurar a animação e parecer um líder dedicado e sério, mas era o que tinha que ser. Pelo menos até chegarem em Flussevir.

Ele já tinha selecionado os nove sáurios que o acompanhariam desde o momento que saiu do alojamento do pai: além de Henkel, Zach e Rak, companheiros de longa data; também levaria Tork pois, apesar de todos os problemas, ele seria um combatente leal agora; dois xamãs, Lara e Shaha Agniarr para cuidar da saúde de todos, não que ele achasse que fosse realmente precisar das artes médicas; e, por fim, outros três Grischarr com quem já tinha trabalhado antes, Asgasch, Rith e Edra. Não teria problemas com nenhum deles, quem sabe Tork, mas acha pouco provável que ele vá fazer alguma coisa.

O jovem sáurio também decide levar os humanos na carroça que trouxeram da vila Hochberg. Teria que adaptá-la como gaiola, mas isso seria coisa fácil e rápida.

Lamark fica um tempo indeciso, sem conseguir decidir onde levaria os suprimentos. Depois de muito ponderar, acha melhor carregar tudo no lombo das montarias mesmo: as deixaria mais lentas, mas o comboio ficaria mais rápido do que se fossem duas carroças ao invés de uma. Fora que o tempo de viagem era de apenas dois dias. Não haveria problemas nem em levar poucos suprimentos, nem de exaurir os animais.

Dois dias se passam, com tudo devidamente preparado. E assim o inusitado comboio parte: dez sáurios muito felizes e sete humanos bastante infelizes.

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