Capítulo 1 – O Covil dos Sáurios (Parte 3)


Meltse não entendia coisa alguma de sáurio, mas era nítido que algo muito errado tinha acontecido durante o saque. O sáurio de armadura estava extremamente irritado com um dos líderes dos saqueadores. A cena toda lembrava muito um pai dando um sermão no filho. E um dos bem grandes. Ele mesmo já esteve em situação parecida algumas vezes.

Por fim os ânimos entre os dois sáurios parece amainar. Um deles sai rapidamente e desaparece. Enquanto o outro, o de armadura, começa a caminhar em direção a Meltse e aos outros humanos. Todos ficam imediatamente apreensivos. Talvez o destino de todos fosse finalmente determinado. E talvez aquele sáurio seria o carrasco…

— Com licença, meus caros. — começa o sáurio de armadura, cortês, falando no idioma do Reino, embora com sotaque carregado — Preciso falar com todos vocês sobre assuntos importantes. — pausa brevemente para respirar — Meu nome é Hamur Grischarr. Sou o líder deste lugar. Devo dizer-lhes que é um tremendo engano vocês estarem aqui. O fogo em sua vila também não foi intencional.

— Mas isso não faz o menor sentido! — exclama Meltse, se esquecendo da situação em que estava.

— Não faz? — indaga Hamur, surpreso com o rapaz — Por quê? Nós só queríamos a comida, para não passarmos fome. O que não faz sentido é termos ateado fogo a Hochberg! Aliás, qual o seu nome, garoto? Gostei da sua atitude.

— Meltse Eisen, senhor. — responde, sem saber exatamente como se dirigir àquele sáurio.

— Eisen, eh? Coincidência. Eu conheço um Eisen. — Hamur para de falar por um tempo e fica pensativo, com a mão no queixo.

Meltse acha aquilo inusitado. Será que aquele sáurio conhecia seu pai?! Não era possível!

— Bem. Continuando. Como eu ia dizendo. Foi tudo um grande erro. Enorme! Meu filho inútil conseguiu fazer tudo errado! Agora vocês estão aqui, sua vila está queimada e todo mundo provavelmente nos odeia ainda mais. — suspira — Filhos… Só servem para dar dor de cabeça.

Ninguém sabia exatamente aonde aquele sáurio queria chegar. Já estava difícil digerir a ideia de que ele sabia falar! Quanto mais que sáurios pensavam mais ou menos da mesma maneira que humanos, sendo muito mais civilizados que as histórias e rumores?

— E então, o que vai acontecer conosco? — pergunta Rachel, tomando coragem. Hamur dá de ombros.

— Bem. Esse é o maior problema. Eu não faço a mínima ideia. O certo seria liberá-los imediatamente. Mas se eu o fizer… vocês irão correndo até Hochberg e trarão um monte de gente de volta em busca de vingança, não é verdade? — E isso era exatamente o que Meltse e os outros tinham em mente.

— Então… o senhor… vai nos matar ou nos vender como escravos? — suspira Ralph, amedrontado.

— Não! Isso eu não poderia fazer! Nunca! Mas, por hora, vão continuar aqui como prisioneiros. Terei de ir a Hochberg antes de pensar em liberar vocês, eh! — e sai, rindo sem algum motivo aparente.

“Certo. Aparentemente nem todos os sáurios são violentos e selvagens. Mesmo quando parecem ser” — pensam todos. Meltse fica um pouco aliviado com aquela conversa. Não estavam em perigo real. Era estranho… Estar num covil de sáurios e se sentir seguro.


Lamark passa um bom tempo em seu alojamento, ruminando. Ainda estava muito incomodado com tudo o que tinha acontecido. O maior e mais fácil de resolver dos problemas era a vila queimada. Iria dar muita dor de cabeça, mas a resolução era relativamente simples: pedir desculpas. Se os moradores de Hochberg vão aceitar ou não… Ninguém sabe dizer.

O menor era o que não tinha solução, seu problema com Tork. Este afetava apenas a ambos os sáurios. Lamark tinha ao mesmo tempo um servo e um inimigo; e a única maneira de `corrigir’ tudo seria um matar o outro. O jovem sáurio nunca faria isso, enquanto Tork era conservador demais para ir contra as regras e ter sua reputação manchada. Quando um sáurio perde um duelo e o vencedor decide poupar-lhe a vida, o perdedor deve seguir o vencedor até o fim dos seus dias ou até que a dívida de vida seja paga.

E então vinha o problema com os prisioneiros. Era errado não libertá-los. E era, na melhor das hipóteses, ruim liberá-los antes de tentar conversar com os outros em Hochberg.

“Talvez ele consiga solucionar esse impasse!” — pensa Lamark, como um lampejo. E corre até onde seu pai provavelmente está.

— Meu pai. Posso falar com o senhor? — pergunta, um pouco inseguro, junto a porta da sala de seu pai.

— Sim, é claro! A menos que seja para me falar de outra burrice sua! Ai pode voltar só mês que vem! — responde Hamur, em tom jocoso.

— Não! Não! — fala Lamark enquanto entra. — Eu acho que tive uma ideia que talvez resolva o nosso problema com os prisioneiros. Por que não pedimos um conselho a ele? Quem sabe pudéssemos até levar os humanos para a capital. Talvez mudasse os ânimos deles também e… não sei.

Hamur percebe a empolgação no tom de voz do filho. Era fato que ele já estava longe de casa a quatro anos. Talvez fosse bom dar uma folga para o garoto. E Lamark tinha um pouco de razão: era bem capaz que ele pudesse ajeitar aquela situação.

— Sim, é uma ideia interessante. — responde então Hamur — Pode preparar a viagem. Levem que você achar melhor! — sorri — Quanto tempo acha que precisa para preparar tudo?

— Uns dois dias no máximo. Já sei exatamente quem levar comigo. Acho que uns dez deve ser o suficiente. E não é uma viagem longa, não vou precisar de muitos suprimentos.

— Tudo certo então! Vá já preparar sua viagem enquanto eu vou avisar aos nossos convidados.

“Sim!!! Vou voltar para a capital!” — pensa Lamark, tentando disfarçar sua felicidade.

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