Capítulo 1 – O Covil dos Sáurios (Parte 2)


Lamark passa todo o caminho de volta preocupado. Tinham conseguido a comida, mas o plano em geral foi um verdadeiro fracasso: queimaram a vila, o que por si só poderia gerar um ódio muito grande. Como se não bastasse, tiveram que levar prisioneiros. Infelizmente foi o melhor que conseguiu pensar no momento: deixá-los livres faria com que fossem seguidos por uma vila enfurecida; matá-los estava fora de cogitação, era contra seus princípios e transformaria a fagulha do ódio num verdadeiro incêndio.

Nem queria imaginar a reação de seu pai! Toda uma confusão porque não conseguiu ganhar a confiança de Tork. Se tivesse percebido antes o quanto Tork o menosprezava… Agora tinha o ódio dele, conseguiu apenas mais um inimigo…

Chegam finalmente na entrada da caverna. Lamark organiza o grupo em duas fileiras para entrarem. E não tira os olhos dos prisioneiros. Seria ruim se fugissem ou alguém os matassem. Espera que seu pai tenha uma solução para aquele problema. E suspira. O dia estava longe de acabar…

Após alguns minutos de marcha eles chegam aos limites do acampamento subterrâneo dos sáurios. Surgem alguns curiosos, querendo saber como foi o saque. E muitas crianças! Para elas era motivo de grande festa: a chegada de um poderoso exército e seus espólios de guerra. Lamark ri de si mesmo pelo pensamento. Adorava crianças. E aquelas felizmente não precisariam passar fome. Logo lembra da situação difícil que estavam todas as vilas e assentamentos fora da capital. Teriam que fazer mais saques…

O exército chega nos depósitos e imediatamente começam a descarregar tudo. Lamark deixa Rak tomando de conta dos prisioneiros e Henkel do exército enquanto ele mesmo vai até seu pai para contar as “boas novas”.

— Pai. Retorno em segurança. — fala, fazendo uma vênia.

— Não há necessidade de tanta formalidade, meu filho. — responde o grande sáurio de armadura. Seu nome era Hamur Grischarr. — Ou… algo ruim aconteceu? — indaga. Ele conhecia bem demais seu filho para saber que ele é muito formal quando está prestes a dar alguma notícia muito ruim…

— Bem… A campanha pode ser considerada um sucesso. Nenhum dos nossos sofreu ferimentos, a vila não ofereceu resistência. Conseguimos uma grande carroça cheia de comida. Mas… — Lamark respira fundo…

— Mas? — pigarreia. “Diga logo, garoto! Solte logo a bomba.”

— … Eu perdi o controle da tropa… Eles atearam fogo na vila…

— O quê?! — grita Hamur, muito zangado — De tudo o que você poderia ter feito de errado essa é definitivamente a PIOR de todas as coisas possíveis! Mais que diabos! Como foi deixar isso acontecer?

— Sinto muito, pai. Tive problemas com Tork. Achei que não fosse coisa grave… Enganei-me. Ele me desobedeceu e ordenou ao exército que avançasse… Agora ele é meu servo e inimigo jurado: ele perdeu para mim em um duelo, mas poupei-lhe a vida…

— Por Regigleph… — suspira Hamur — Por quê não foi atrás da tropa para impedi-los pelo menos?

— Achei que seria inútil depois de tudo acontecido. Eles não iriam me escutar mesmo…

— Certo, certo. — fala, franzindo o cenho. — Mas continue… Tem mais, não tem?

— Sim… — responde, hesitante — Ainda havia alguns humanos na vila, poucos, mas estavam lá. Foi outro motivo para eu não ter ido imediatamente atrás de Tork e dos outros. E acho que teria sido muito ruim se os outros tivessem encontrado os humanos… Eles estavam em sete. Conseguimos neutralizá-los sem muitos problemas e os amarramos. Depois do que Tork havia feito eu decidi trazê-los como prisioneiros. E fim. — Lamark termina, baixando a cabeça.

Hamur demora um tempo ruminando no relato que ouviu. Lamark sabia que era mal sinal. São segundos de silêncio tensos para o jovem sáurio, sabia que seu pai estava prestes a explodir em cima dele.

— Pelos Deuses! É tudo muito pior do que meus piores pesadelos!!! Você nos conseguiu inimigos que são nossos próprios vizinhos e sabem exatamente onde estamos!!!

“Como assim eles sabem?” Lamark tinha tomado cuidado para não serem seguidos e Zach não viu nem ouviu ninguém. Seu pai continua o sermão, interrompendo os pensamentos do filho:

— E ainda conseguiu um inimigo entre seu próprio povo, seu próprio clã!!! Tudo porque “não conseguiu se impor”?! Isso é um absurdo! Eu não te criei para ser tão atrapalhado e inútil!

— Eu sinto muito, pai. — fala baixinho.

— E é para sentir mesmo! Eu te criei para ser um líder! Um grande líder!!! E você nem consegue um punhado de lealdade sem ter que começar uma vendeta?!! — então Hamur se cala de repente. Sente que sua raiva estava tomando suas palavras, como acontecia de vez em quando.

Ele sempre soube que seu garoto iria ter muitos problemas entre os seus, principalmente na questão de liderança. Lamark não tinha nascido como a maioria dos sáurios, talhados para a batalha. Era fraco e mal sabia lutar. E isso tudo, que já era muito ruim, piora ainda mais pelo fato do garoto ter nascido no clã Grischarr, o clã dos guerreiros.

Hamur respira fundo. Sabia também que seu filho era muito mais do que ele mesmo ou qualquer um achava, mesmo mirrado e fracote. O garoto tinha encontrado um jeito diferente de força. Um que muito poucos sáurios concordavam…

Definitivamente tinha exagerado. Seu filho já tinha problemas o suficiente, não precisava de mais um chamado pai. Suspira:

— Tudo bem, meu filho. Vamos ver o que consigo fazer para consertar essas suas burradas. E não quero que isso aconteça de novo! E… está dispensado. Vou conversar com os prisioneiros…

Lamark então sai apressado, de cabeça baixa mas sorrindo: sabia que seu pai o havia perdoado.

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10 comentários sobre “Capítulo 1 – O Covil dos Sáurios (Parte 2)

  1. Uma parte especial, muito especial. É importante termos personagens complexos como o Lamark, que ora mostra-se um vil aos humanos, mas que, na verdade, é tão humano, senão mais, que os próprios aldeões da vila. Obrigado por me fazer lembrar de características tão valiosas.

      • :p Às vezes eu acho que eu sou muito ‘paga pau’ pros sáurios. Eles meio que são meus elfos xD (não excluindo a existência deles na minha história ;) )

      • Parte da inspiração veio do Tork (trogloditas) de HA, outra parte veio dos Homens Lagartos do D&D e mais uma de Lua dos Dragões xD
        Na aparência tão mais para o pessoal de Lua dos Dragões mesmo (Não sei se vc reparou, eles são altos :c)

      • AW :3 Também adoro o Tork. Mas eles são parecido com ele também, é a mesma artista, sabe :p

        P.s.: Você conhece o Rak? :p

      • É de um dos zilhões de manhwa coreanos que estão despontando por aí: Tower of God. Acho que é o segundo lagarto mais carismático que eu já vi :)
        P.s.: Eu leio dezenas de manwah :c

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